Encontro Entre Meninas

A menina de quatro anos já não receia quando vou à sua casa. Agora parece estar consolidado: sou amiga de sua mãe e, se não é possível manter-me à distância, melhor é tomar partido da convivência. Ontem, pela primeira vez, recebi dela um convite para brincar. E como se brincar fosse fácil, aceitei logo. Pela mão, fui levada até o sofá onde um trio de bebezinhos e um pônei de cabelos roxos se enfileiravam.

Para parecer digna do convite, tratei de me antecipar e dizer que aquelas ali eram as clientes de um salão de beleza e que nós éramos as cabeleireiras. A menina de quatro anos apertou um tanto os olhos, como parecesse muito estranha a minha ideia. Então tomou o pônei em mãos e perguntou se eu poderia fazer uma trança nele. Constrangida, emendei: se os bebezinhos não tem cabelo, poderíamos dizer que estavam ali para ver a mãe pônei ganhar um novo penteado? A menina de quatro anos apertou os olhos de novo e dessa vez riu; essa amiga da mãe não sabe que os bebezinhos não são filhos do pônei, que as mães deles somos nós?

Enquanto eu fazia as tranças, orgulhosa por saber fazê-las, a menina de quatro anos se comportou como uma boa assistente. Segurou e passou elásticos, presilhas e fez fofocas.

A menina de quatro anos provavelmente nunca esteve em um salão de beleza e se esteve não pensou em fazer da nossa brincadeira a repetição dos clichês sobre o que julgamos ser o teor dos diálogos nesse tipo de ambiente. Suas ações intuitivas foram conduzindo a cena para o que poderia existir de genuíno e relembrei que o lúdico se produz fora dos limites estreitos do racional. A minha ausência de espontaneidade, por outro lado, foi trançando não os cabelos do pônei mas as minhas próprias pernas, como num esqui montanha abaixo, pronta a me espatifar.

Então a menina de quatro anos também cochicha que há uma fruta que é a rainha das frutas e que essa fruta é o abacaxi. Diz que há na cozinha uma fruta muito estranha, que parece ter uma coroa como a do abacaxi, só que menor. Volta com uma romã. Tento tomar a romã, mas ela se afasta e abre as mãos em concha, como quem orienta meu dever de “ver com os olhos”. Seria a fruta verdadeira ou falsa, de cera, retirada talvez de um cesto decorativo? Pergunto se a romã é de mentira e a menina de quatro anos faz que sim com a cabeça. Depois cheira a casca e diz que quando a mamãe abrir com a faca, ela comerá as bolinhas doces. A menina de quatro anos consegue fazer com que eu já não saiba o que é real e o que é fantasia. Mas quando percebe minha confusão, retoma o prático e cotidiano:

– Você sabe o que a minha mãe fez de sobremesa?

– Não, o que ela fez?

– É segredo. Você sabe guardar segredo?

– Sei sim. Então, o que é que a sua mãe fez?

– Uma gelatina colorida que tem várias camadinhas: limão, abacaxi e uma azul que eu não sei qual gosto é.

A menina de quatro anos levanta os dois braços na altura do rosto e balança as mãos com força, como se quisesse secá-las de uma água que só ela sente. Fecho os olhos para tentar sentir no rosto qualquer respingo e é inútil.

Depois disso, o almoço já está na mesa e vamos cada qual para o seu canto. Enquanto vejo a menina de quatro anos com seu garfo e prato, penso como é bom saber que agora somos amigas. Mas há em mim um grande vazio. Talvez porque a ideia da gelatina que virá a seguir não agite o meu corpo. Acharei a gelatina em camadas bonita, refrescante, saborosa até. Cumprimentarei a mãe da menina de quatro anos pela sobremesa, ela agradecerá e explicará como foi simples. E pensarei quantas horas ela deve ter levado para adicionar cada nova camada líquida só depois de bem firmadas as camadas anteriores.

De certa forma, a menina de quatro anos parece ser a primeira camada de gelatina quente, o amarelo vivo, o brilho translúcido, o líquido a percorrer e preencher a forma com velocidade. Eu, como vivesse num tempo frio, sou a gelatina já pronta, cheia de camadas, servida, fatiada, a derreter no prato enquanto todos já se afastaram da mesa.

Por qual razão transformar-se em adulto pressupõe o desencanto? Haverá maneira de resgatá-lo?

Nesse mesmo dia do almoço, além da menina de quatro anos, filha da dona da casa, outra amiga convidada trouxe sua menina, essa tem quase dois anos. Eu e a menina de quase dois anos ainda não somos amigas. Toda vez que tento pegá-la no colo, ela ameaça o choro. Se tento entregar qualquer objeto, ela fecha as mãos e as esconde. Se a mãe pede que me dê um beijinho, ela ignora. Mas há uma coisa que a menina de quase dois anos não ignora: o próprio nome. Quando quero chamar sua atenção, porque ela é fofa, doce e esperta demais para que eu me conforme com a inexistência da nossa amizade, o que faço é simplesmente chamar o seu nome. Chamo seu nome como numa galhofa, feito essas crianças endiabradas que tocam a campainha dos vizinhos apenas para importuná-los. A menina de quase dois anos provoca em mim um desejo infantil de tripudiar. Então, a cada vez que a chamo, no tom de chamamento mais exato que consigo reproduzir, alongo a segunda sílaba do seu nome, e ela vira o pescoço. Interrompe o que estiver fazendo e vira o pescoço. A esse chamamento sempre bem sucedido, faço acompanhar uma demanda por uma qualquer tarefa: olha o bebezinho sozinho ali no tapete, traz o bebezinho aqui para mim! Olha o bebezinho dentro da caixa, tira ele da caixa e coloca sentadinho na cadeira!

A menina de quase dois anos parece alerta à importância do que peço. Acredita na importância de tudo que demando e pretende, com sinceridade, atender. Não parece duvidar do conteúdo, só duvida mesmo, é da pessoa. E procura nos olhos da mãe a confirmação: isso filha, leva o bebezinho para a tia!

Enquanto vejo a menina de quase dois anos vir em minha direção de mãos dadas com o bebezinho enquanto o arrasta até os meus pés, penso como é bom saber que quase somos amigas. Mas de novo, como aconteceu há pouco com a menina de quatro anos, há em mim um grande vazio. Porque é como se a minha vida antes, agora e também amanhã não fosse outra coisa que atender, tal como a menina de quase dois anos, a um elenco de demandas cuja relevância nunca se confirma, os meus maiores esforços entregue aos pés de quem não sei como reagirá diante da minha obediência. Demandas aumentadas sempre em quantidade e dissolvidas entre remetentes conhecidos e anônimos, que chegam de perto e de longe, e que tantas vezes já estão intrometidos em mim, presos à minha própria voz.

A menina de quase dois anos, que ainda não fala outras palavras senão papai e mamãe, é quem, entretanto, ensaia uma resposta sobre a maneira que os adultos desencantados têm para resgatar um estado de crença, de escuta, correspondentes a um encantamento possível: ter um filho ou conviver com os filhos dos nossos amigos. Arrastar um bebezinho no tempo, pelas mãos do desejo.

Aliás, até para quem tem filhos, conviver com os filhos dos amigos é importante. As crianças, as nossas e as dos outros, nos fazem procurar o reencontro com alguma espontaneidade, com o pensamento abstrato, com a humildade. Elas nos denunciam. Nós contamos com elas e elas contam com os adultos para fazer da vida uma história que, mesmo se não fizer sentido, merece ser interessante e compartilhada, como gelatina em camadas verdes, amarelas e azuis, em dia de Copa do Mundo.

 

Andressa Barichello nasceu em São Paulo. É mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa e co-fundadora do projeto de Coinspiração Cultural Fotoverbe-se.com no qual realiza vivências com artistas. É autora do livro “Crônicas do Cotidiano e outras mais” vencedor do prêmio Alejandro Cabassa pela União Brasileira dos Escritores do Rio de Janeiro, publicado em 2014 pela Scortecci Editora.

Arte: Nanna Ajzental

 

1 Comentário

  1. Que delícia de conto. Adoro as ligações inesperadas: crianças, gelatinas, cabeleireiros e copa do mundo! A foto com a escrita também ficou demais!

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