e. e. cummings

Dizia Goethe (segundo a internet): Todos os dias devíamos ouvir um pouco de música, ler uma boa poesia, ver um quadro bonito e, se possível, dizer algumas palavras sensatas.

Se as palavras sensatas andam cada vez mais raras, pelo menos na poesia a EMA pode ajudar. Há tempos buscamos aumentar o conteúdo de poesia do site, coisa que a Mariana Cavariani vinha fazendo cá e lá, mas que agora será mais regular com nosso novo colunista, Lucas Morgenstern (aplausos). Uma vez por mês, Lucas nos apresentará um poeta, uma poesia e sua visão pessoal da obra apresentada. Boas Leituras!


 

Edward Estlin Cummings, conhecido como e. e. cummings, em letras minúsculas mesmo – era como costumava assinar em vários de seus trabalhos –, foi uma figura expoente da poesia norte-americana na primeira metade do século XX. Ele está entre os poetas modernistas mais influentes, mais lidos, e mais reverenciados de seu tempo.

Nasceu em 14 de outubro de 1894, em Cambridge, Massachusetts. Cresceu em um ambiente casto e religioso. Quando chegou à Harvard a poesia moderna havia lhe chamado a atenção. Nesse período, entrou em contato com poetas que o influenciariam profundamente no caminho que viria a trilhar, como Gertrude Stein e Ezra Pound. Começou, então, a escrever uma poesia tida como vanguardista, na qual a pontuação tradicional e a sintaxe são ignoradas em favor da dinamicidade e fluidez da linguagem.

Já formado, serviu na Primeira Guerra Mundial ao se voluntariar para o Norton-Harjes Ambulance Service, na França, em abril de 1917. Trabalhar no setor de ambulâncias foi uma escolha popular entre aqueles que se definiam pacifistas. No tempo em que serviu, ele e um amigo foram detidos em um campo de prisioneiros pelas autoridades francesas. Eram suspeitos de espionagem por suas declaradas convicções anti-guerra.

A década seguinte, de 1920, foi especialmente produtiva para Cummings. Em 1922 publicou o seu primeiro livro, The Enormous Room, um relato fictício do tempo que passou encarcerado na França, o qual recebeu críticas muito positivas. A primeira coleção de poemas nasceu logo depois, em 1923, sob o título de Tulips and Chimneys. Nesse período, se estabeleceu como um audacioso poeta de vanguarda.

Visto como um dos mais inovadores da sua época, Cummings experimentou com a forma e a linguagem poética para criar um estilo pessoal muito distinto. Um poema típico de Cummings é econômico e preciso, utilizando poucas palavras-chave, dispostas excentricamente na página.

Acima de tudo, muito se discutiu sobre a temática da sua obra poética. Ele conseguiu dar a tópicos já castigados pelo mainstream, uma nova ótica. Assuntos passé foram renovados sob o peso de suas palavras. Isso resultou no que Stephen E. Whicher cunhou como “a renovação do cliché”. O efeito principal de Cummings com seus jogos com a sintaxe, gramática, e dicção, foi a divisão do áto modosensocomum.

Ao todo, escreveu 12 livros de poesia, hoje reunidos em dois volumes intitulados Complete Poems (1968). Os experimentos linguísticos de Cummings foram amplos; desde neologismos e novas conjugações, até a inversão de sintaxe. Defendeu que a arte, ou a poesia, no caso, não é um produto, mas um processo. Morreu com 67 anos, em 3 setembro de 1962, em North Conway, New Hampshire.

Também pintou quadros, embora eles não tenham chamado tanta atenção quanto a sua arte escrita, ainda são notáveis e podem ser admirados aqui.

Let’s Live Suddenly Without Thinking

 

let’s live suddenly without thinking

 

under honest trees,

 a  a stream

does.the brain of cleverly-crinkling

-water pursues the angry dream

of the shore. By midnight,

a a moon

scratches the skin of the organised hills

 

an edged nothing begins to prune

 

let’s live like the light that kills

and let’s as silence,

 a because Whirl’s after all:

(after me)love,and after you.

I occasionally feel vague how

vague idon’t know tenuous Now-

spears and The Then-arrows making do

our mouths something red,something tall

 

Vamos Viver Repentinamente Sem Pensar

 

vamos viver repentinamente sem pensar

 

debaixo de árvores honestas,

 a  um riacho

será que.o cérebro de uma sábia-enrugada

-água persegue o sonho raivoso

da costa. À meia noite,

 a lua

arranha a pele das colinas organizadas

 

um nada afiado começa a podar

 

vamos viver como a luz que mata

e vamos como o silêncio,

a porque o Turbilhão depois de tudo:

(depois de mim)amor, e depois de você.

Eu ocasionalmente eu me sinto vago o quão

vago eunão sei tênues Agora-

lanças e As Então-flechas consolando

nossas bocas algo vermelho,algo alto

– tradução por: Lucas Morgenstern

Sobre o poema

Nesse poema Cummings caminha por temas há muito tempo erodidos pelos passos descuidados do passado, todavia, por meio de uma imagética abstrata, mas refrescante, poética, mas autêntica: eis um novo olhar sobre o amor e a vida. A jornada que ele nos impõe é tão pessoal que faz com que nós, leitores, sejamos obrigados a sentir ao invés de pensar o labirinto de suas construções.

Ao se permitir absorver o poema de maneira emocional, lutando contra o desejo de encaixotá-lo dentro da lógica, pode-se entender o que ele quis expressar. Esse poema não foi escrito para a sociedade ou para eventuais críticos plantonistas. Ele criou, sim, um poderoso lembrete para si mesmo, daqueles que colocamos na porta da nossa geladeira, para lembrá-lo de viver sempre à luz do presente. Cada palavra, ou mesmo cada deliberada violação das convenções gramaticais e da pontuação, são fenômenos da autonomia do seu ser, revelando em si a verdadeira face do amor como Cummings o experimentou e o viveu; a irreverente constatação de que o amor não pode, e não deve, ser domado.

Muito embora escrever utilizando-se majoritariamente da emoção como base de entendimento de seus poemas seja a coisa mais pura e verdadeira possível – pois ela é natural, ela é instintiva, nasce inocente do pecado da lógica, como diria Nietzsche – existe a irrefutável possibilidade de isolar-se; não são todos aqueles que conseguem desligar suas vozes analíticas para vivenciar a poesia como uma sensação. Cummings sabia que incorreria nesse dilema, e aí está o que mais me admira nele: o fato de que ele não se importou. De fato, importou-se apenas com escrever. Seríamos, sim, apenas uma porção rachada do ser que hoje somos, se não existisse a verdade, a beleza – aquela ignorante de quaisquer pré-requisitos -, e a cumplicidade com a nossa alma. Nesse sentido, a arte, muito mais ela do que os artistas propriamente ditos, é responsável por nos lembrar de que a vida não é uma busca pela verdade; é a indagação do porquê precisamos dela.

Por Lucas Morgenstern

1 Comentário

  1. Obrigado.

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