Do Outro Lado

Aos domingos a televisão portuguesa exibe um programa que consiste em apresentadores irem a feiras de gastronomia e artesanato que acontecem ao ar livre em todo país. Há sempre música, comida e plateia.

Fala-se com expositores, anuncia-se produtos, corta-se para uma vinheta com cantores apontando para a câmera, e quem está do outro lado assiste a tudo num misto de tédio e curiosidade.

Entre uma chamada e outra, os animadores percorrem diversos setores. Abordam o público perguntando se a comida é boa e se a diversão está garantida e se querem mandar beijinhos.

Pessoas idosas são as que mais mandam beijos para os filhos e netos. Hoje duas mães, em momentos distintos, mandaram beijinhos para os filhos a viver na França. E ambas desataram a chorar, ao vivo.

E então pensei na saudade das mães. Não propriamente na saudade que as mães sentem dos filhos. Pensei na saudade das mães em serem mães. Criar filhos e voltar-se a eles, criar filhos e voltar-se a eles… Até que os filhos não precisem de uma mãe, só de uma mulher adulta que ajeite os cabelos, vista um bom casaco de inverno e saia de casa e vá a uma festa para se divertir, e que de lá, bastando a si mesma, envie beijinhos a eles, a eles que estão sempre em algum outro lugar, não na França, é claro, mas num universo paralelo onde um certo canal direto ainda sobrevivia ao umbigo cortado; – um canal que perde-se a cada dia, especialmente quando chegam noras, genros, netos.

Uma mãe é alguém que, sabendo que do outro lado não estão os filhos a recebê-los, envia muitos beijinhos. Mãe, esse ser capaz de sustentar num gesto o que não existe e construir assim tudo que existe.

Mas os beijinhos, extraviados do universo paralelo pelo fosso da realidade, encontram, do outro lado, apenas outras mães com filhos na França, diante da telinha da tevê, a se distraírem em um fim de domingo – asseadas, alimentadas, bastantes, sozinhas. E então o beijo que mira nos filhos acerta em cheio um espelho. As mães com saudades de serem mães se emocionam ao vivo, e o apresentador diz, providencial, palavras de um consolo exato: “não chore assim, mulher”.

Mulher, esse ser que sobrevive à mãe, e vacila e se emociona ao dar-se conta de que o tempo, quanto mais passa, mais a devolve a si.

Diante da tela permaneço num misto de tédio e curiosidade, mas não consigo mudar de canal. É como se a qualquer tempo também pudesse aparecer a minha mãe a enviar-me um beijinho. É como se eu acreditasse poder cumprir a missão impossível  manter o canal direto que a impeça de encontrar o espelho, que a impeça coincidir consigo mesma.

Assim talvez sejam as filhas, as filhas com saudade de serem filhas, mas essa já é outra história.

Andressa Barichello nasceu em São Paulo. É mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa e co-fundadora do projeto de Coinspiração Cultural Fotoverbe-se.com no qual realiza vivências com artistas. É autora do livro “Crônicas do Cotidiano e outras mais” vencedor do prêmio Alejandro Cabassa pela União Brasileira dos Escritores do Rio de Janeiro, publicado em 2014 pela Scortecci Editora.

Arte: Nanna Ajzental

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