Divina Tragédia

Segunda Crônica por Cid Brasil

Ontem, pela primeira vez, quase comprei um livro no site da Amazon. Freei esse ímpeto graças à minha implicância com as grandes corporações – ou pelo menos com algumas grandes corporações. Apesar da economia do site e da aparente praticidade aguentei firme o tranco graças às lembranças dos pequenos prazeres que uma livraria de verdade pode proporcionar. Passados dois minutos de meu ato de resistência, fui invadido por duas imensas orelhas de burro ao lado da cabeça por ter me dado conta de que acabarei não só comprando o livro numa megastore qualquer de shopping como pagarei bem mais caro.

Ainda que tenha tentando me animar com a chance de poder o roubar meu objeto do desejo, não demorei a admitir que minha carreira na criminalidade livresca está encerrada desde que desci ao mais baixo nível das estantes alheias quando furtei uma biblioteca pública. E olhem que não era nada de outro mundo, apesar da edição ser novinha. Admito aqui a óbvia idiotice e a compulsão imbecil do ato, só que eu não tinha cadastro na biblioteca (nem teria como fazer, pois era a biblioteca da universidade federal e como não estudo lá nem pretendo…).

Foi numa sexta a noite que meu último crime se deu, e antes que você pense o que eu diabos eu fazia numa biblioteca numa sexta-feira às nove da noite, bom, admito que já fui na intenção de roubar mesmo. Às vezes o individuo está louco na droga ou louco na própria solidão querendo só um pouquinho de História e alguma graça para pôr num texto do futuro. Na época eu estava escrevendo um romance que se passava num cemitério e precisava de Virgílio para o enredo fluir. E lá fui eu tentar entender melhor umas dessas primeiras duplinhas do barulho da literatura, roubando a Divina Comédia.

Chegando em casa me pus a lutar com a leitura e com minha tentativa de escrever. A meio caminhar dessas cambaleantes atividades uma forte dor no braço direito me fez soltar a mão de Virgílio já na entrada do Inferno no livro. Tentei dormir mas a dor era mais forte do que o sol que já transpassava as cortinas com o alvorecer. Vou morrer, pensei. Os versos de Dante: “Como lá fui parar dizer não sei/ tão tolhido de sono me encontrava,/ que a verdadeira via abandonei” exemplificam o modo como dirigi até o hospital mais próximo.

 Com licença, falei para a atendente do hospital, estou sentindo uma dor terrível no braço, junto de um formigamento… Seria um infarto?

Se ela tivesse visto um cachorro gigante com duas cabeças aquela hora da manhã talvez não tivesse se espantado tanto, rapidamente ela solicitou carteirinha de plano, meus dados e maiores detalhes, mas infelizmente toda essa empatia assustadiça só me garantiu uma cadeira de rodas para ficar mais confortável na fila de espera e facilitar a possível atuação dos maqueiros caso fosse necessário. Sete horas da manhã de um sábado e eu numa emergência, numa fila de espera, julgando que a qualquer momento seria sorteado pela Tele-Sena do Capeta enquanto pensava na minha vida vazia, sem namorada, com meus pais em viagem e ninguém para se espantar caso eu sumisse. Sim, eu era uma edição em brochura, de capa mole, que ninguém dava pela falta.

Um garoto de cinco anos brincava na recepção e insistia em me encarar. Talvez ignorasse a própria febre ou a agonia do avô que o acompanhava (não soube qual dos dois estava doente). Meditando no próprio menino e também em meu papel de poeta prestes a entrar no inferno, sem ninguém para me dar a mão, não pude deixar de blasfemar contra deus por se valer dessa forma não só do trabalho infantil como também de seu simbolismo arcaico, pondo meninos assim disfarçados, porém acho que nunca invejei alguém de forma tão profunda quanto aquele anjo que rodopiava e deslizava pela sala de espera da emergência, trazendo minha própria infância a baila e a fala da pérfida Francesca a memória: “Não há tão grande dor/ qual da lembrança de um tempo feliz,/ quando nos encontramos em miséria”.

Curiosamente os passos e traquinices solitárias do menino foram me acalmando e as formigas no braço sumindo, sumindo, sumindo… E quando finalmente fui atendido, o médico logo tratou de me acalmar, já que a dor não era no braço esquerdo e de que eu era muito novo para enfartar assim. Recomendou uns exames e repouso, pois aquela dor certamente podia ser fruto do esforço repetitivo e da má postura a que eu me atirava em meu romance ruim. O doutor pediu ainda que eu não me estressasse tanto com literatura, um conselho que carrego até hoje e que procuro deixar de lado somente quando quero muito comprar um livro e não tenho saldo bancário.

Após a consulta e de um café da manhã com dois belos croissants e um pingado, percebi que aquela dor misteriosa mais do que tudo era um castigo por meu pecado de ter roubado um lugar sacro como uma biblioteca. O que me doía o braço era o peso de meu crime na verdade. No dia seguinte, tratei de rumar para a Universidade Federal e dei por encerrada minha maldição ao devolver o Dante para a seção de literatura italiana da biblioteca. Saindo de lá, fui até a livraria mais próxima e comprei uma edição da Divina Comédia, caríssima por sinal, e me prometi só voltar a mexer no meu romance (e roubar livros) quando terminasse os três tomos do extenso poema. – O que, é claro, jamais ocorreu.

Cid Brasil é escritor, algo entre José Sarney e James Joyce. Seu livro de contos e crônicas, “A Importância de se Chamar Kurt Russel”, será publicado no 2º semestre de 2018 pela editora Imprensa Oficial Graciliano Ramos.

Ilustração de Gustave Doré para a Divina Comédia de Dante Alighieri.

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