Dia dos Mortos

Não, não o coração: o cérebro. Desde a primeira consulta com Dra. Maura, Iolanda não fazia mais o tipo que acredita em sentimentos. Agora tinha fé na supremacia dos processos químicos. Era isso que a Dra. explicou: que as sinapses não funcionavam muito bem fazia um ano, já. Exatamente um ano, hoje, que os receptores de noradrenalina e serotonina apresentaram desajustes advindos de um evento traumático, que a Dra. falou que se chamava STPD – Síndrome Trans-alguma-coisa, que não é pra pensar em “Ser Traída Por Defunto”, mesmo sendo exatamente isso que aconteceu, por que não tem lógica ter raiva de morto, que agora Iolanda era uma pessoa lógica.

Que era lógico também que, além do processo medicamentoso, o tratamento incluía eliminar os gatinhos, ou melhor, os gatilhos, embora aquilo envolvesse eliminar gatinhos também, já que o principal gatilho era um gatinho preto, o Jarbas e, portanto, que o Jarbas precisava morrer para que se restaurassem as conexões do cérebro. Era óbvio, mas ela tinha tomado só mais metadinha hoje, pra evitar que as sinapses desequilibrassem na hora errada e que ela não conseguisse mais pensar daquele jeito racional, o que seria, necessariamente, a consequência de matar o Jarbas sem tomar mais metadinha. O que era óbvio, óbvio que não tinha como não ter tomado a metadinha extra.

Que era óbvio também que era engraçado que tudo tivesse acontecido naquele dia, porque era dia dos mortos e morrer no dia dos mortos é irônico, com certeza, e agora o Jarbas ia morrer também. Iam os dois pra a puta que o pariu, ou melhor, iam voltar para a base do ciclo do carbono, que é como a matéria orgânica do Planeta Terra se recicla, e portanto não era como se Jarbas realmente fosse morrer, mas apenas renascer em outras formas, assim como aquele canalha do Vladimir, que já foi tarde, e aquela puta que ela não conhecia o nome. O carro não, porque o carro não faz parte do ciclo do carbono, lógico, portanto o carro não morreu porque não estava vivo e também não vai voltar a vida porque é um carro. Morto mesmo só o triplo canalha do Vladimir, canalha não por ter morrido, porque ninguém quer morrer, mas canalha por ter morrido sem ela e canalha por ter morrido com outra, naquele carro, esse que não morreu, e canalha uma terceira vez, que ela sabia que o Vladimir bebeu aquela noite, como bebia toda noite, então lógico que ele próprio tinha escolhido o risco de matar alguém – no caso ele mesmo, e a puta, óbvio, mas puta não é gente, nem o Jarbas que também não é gente mas vai morrer igual.

Que tinha também que ser ali, na cova do maldito do Vladimir, já que o gato era dele e ela nem gostava do Jarbas, que claro que ela não precisava ficar triste, porque tem lugar que as pessoas comemoram o dia dos mortos com a cara pintada e fazem festa, que portanto era só coisa de brasileiro ficar triste por gente morta, mesmo triplo canalha morto, mesmo gato preto, mesmo puta, tudo morto aqui, tudo embaixo da terra. Que era lógico que ela não ia ficar triste quando tem gente aqui do lado pulando de felicidade, no México, na Argentina, em todos os países, cara pintada de caveirinha, e mesmo aqui, quem é que vai no cemitério chorar por triplo canalha? Quem é que vai? Por que que ela ia? Por que que ela chorava pelo triplo canalha do Vladimir e aquele gato puto preto, morto na geladeira, morto no congelador, o gato, o Jarbas morto, morto faz tempo, Vladimir. Lógico que morto que nem você, Vladimir, morto que nem você, porque você morreu, Vladimir. Toma teu gato, Vladimir, que eu matei, toma aqui o Jarbas morto que agora eu trouxe, morto que eu trouxe aqui pra deixar na tua cova, Vladimir, morto aqui com você, com a puta, e se Deus quiser morto comigo um dia.

Por Henrique Fanini Leite

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