Destinatário não localizado

            Tu vives em um mundo que pensas ter virado de pernas pro ar. Não, não de pernas pro ar porque se assim o fosse, você pensaria que as coisas ainda estavam no lugar e que elas só precisariam de uma ajuda para desvirar-se. Não, o que você sente mesmo é que tudo perdeu o fio de sua meada. Mesmo nesta tua eterna existência, nunca, nunca sentiste assim.

            Você era apenas um jovenzinho quando viu naquele campo francês e soube o nome daquilo apenas depois, o avião planando no ar. E pensou como alguns: Agora poderemos ser como pássaros, um sonho de criança! Mal sabia que aquilo já seria tua primeira decepção. Enquanto aquele que você viu no campo matou-se de desgosto, outros dois irmãos que reclamaram o mesmo feito, bom, esses não se mataram não. Muito pelo contrário. O que já te dava dicas dos homens e suas nações.

            Depois você viu a morte de alguém importante acabar em guerra, a primeira, catalogaram, e achou bem engraçado porque muitas pessoas são mortas todos os dias e a única guerra que se faz por elas é travada no coração de seus entes. Alguns diriam só da mãe.  Finda a guerra, nunca mais!, é o que diziam, tamanha barbárie e horror. E tu ainda tinhas esperança no coração dos homens afinal, século novo, vida nova!

            Não, não, não…. Você viu cada homem pensar que sabia o que era melhor pra si, sua cidade, seu estado, seu país e pro mundo inteiro! O mundo inteiro, como se ele fosse uma bolinha de gude que se joga. E pior, como duas crianças ranhentas de birra , cada qual dizia: o meu é melhor, ao que o outro, em eco, devolvia: não, é o meu! Nova guerra e já era a segunda que você via em sua vida tão breve. Você viu com teus próprios olhos os homens em cima de mapas brincando com soldadinhos. Manda esta tropa para o norte, desloca estes tanques para o oeste! Um mais empolgado até imitava o bombardeio de seus aviões e bonequinhos inimigos eram catapultados ao ar. Já não sentias decepção, estava estupefato até o dia em que uma ordem foi dada, um avião decolou, um botão foi apertado e uma cidade queimada viva. Para piorar tua dor, isto se repetiu. Você não conseguia entender, simplesmente não conseguia.

            Assustados, mas nunca arrependidos do que fizeram, você viu a promessa de que isto não aconteceria mais. Ah tá!, você pensou. Os anos passaram e agora cada um podia viver como queria, era o que faziam você acreditar. Muros caíram mas nunca deixaram de existir . Você pode ir onde quiser? Não se não tiver um papelzinho cheio de carimbos e alguém que decida que você é bom o suficiente pra entrar ali. Você pode estar com quem quiser? Não porque tem gente que acha que sabe o que é melhor pra você e quer te salvar das labaredas do inferno. Pensar diferente, vir de outro lugar, querer ser apenas feliz, você descobriu que tudo isso é perigoso porque alimenta o ódio.  Intolerância, dizem. Causa guerra, causa fome, mata gente. Intolerância não, pra você isso é maldade mesmo.

            As rugas de teu rosto te dizem que você já viu isso antes. Não demora  e você vê tudo de novo mas dessa vez é pior. Você resolve escrever uma carta contando tudo o que viu para o seu filho porém teu filho não havia nascido e nunca existiria porque agora não tinha mais mundo para viver. Mas você escreve mesmo assim.

Mariana B Cavariani

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