Dans La Maison

O estilo de François Ozon é controverso, sobretudo pelo voyeurismo de algumas de suas obras, das quais quem sabe a mais conhecida seja Jaune et Jolie. Em Dans La Maison, Ozon desenvolve uma narrativa metalinguística, combinada com elementos de drama e suspense, em que é propositalmente difícil compreender o que é realidade (dentro do pacto ficcional) e o que se passa apenas na imaginação dos personagens. A obra é baseada em uma peça de teatro, El Chico de la Última Fila, de Juan Mayorga.

Germain, um professor de literatura de meia idade, descobre um talento literário incomum no seu aluno Claude, cujas histórias envolvem personagens reais de seu entorno, mas em situações ficcionais. Ao menos é nisso que Germain acredita. Ao se aproximar do aluno, na tentativa de incentivar o desenvolvimento de seus talentos, o professor se vê transformado ele próprio em personagem – e subitamente vítima dos caprichos do garoto.

A infidelidade dos franceses já é algo mitológico e, a julgar pelo cinema, pode muito bem haver um fundo de verdade no estereótipo. Boa parte dos escritos de Claude lidam com este tema. Apesar da alegada qualidade, as histórias são muito próximas daquilo que a grande parte dos adolescentes interessados em escrever ficção produzem: versões fantasiosas da própria vida, com eles próprios protagonistas das aventuras. Ozon é brilhante em gerar credibilidade para essas fantasias, nos colocando, quem sabe (o filme não se esforça para clarificar), no ponto de vista do professor. De início, as fronteiras entre o ficcional e o real são claras, mas conforme Germain se envolve com as obras de seu pupilo, mais borradas elas se tornam. Pensando factualmente, o que se expõe na narrativa como uma possibilidade é bastante improvável, mas não para os personagens. A maestria do diretor está em não nos permitir essa avaliação sóbria dos fatos, inserindo-nos – literalmente – nas fantasias do garoto.

Por Henrique Fanini Leite

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