Crionças

Segunda Crônica por Cid Brasil

A primeira vez que entrei num teatro foi junto da minha turma da segunda série. Não era um espetáculo para crianças e isso até nós, diletantes em miniatura, percebemos devido ao empurra-empurra na entrada e aos pisões que levamos de outros espectadores bem maiores.

Desconheço de quem foi aquela ideia de convencer a diretora, uma evangélica empedernida, a nos levar para um espetáculo adulto, à noites, num teatro lotado, sendo que a única experiência dramatúrgica que tínhamos até então era decorando frases para a feira de ciências. Queria poder relatar aqui o meu impacto com a arquitetura eclética da casa ou mesmo a paralisia que senti ante a vivacidade da coisa toda, mas o que ficou na memória foi nossa diretora em pânico depois que um ator, nos minutos iniciais da história, emulava uma masturbação no palco.

Vestido.

Algum tempo depois, já adulto, assisti na íntegra essa peça graças a uma remontagem da mesma Companhia. O enredo retratava a crônica de uma família de boias-frias e a cena com o ator “se alisando”, como disse a diretora da escola, fazia parte de uma coreografia toda estilizada de um estupro sofrido pela protagonista. A “polêmica cena” servia mais para retratar a humanidade daqueles personagens oprimidos do que para chocar e com exceção de um ou outro palavrão que toda criança ouve os pais repetirem em casa, não havia nada de indecente no espetáculo.

Ainda assim, aquele dia conseguiu ser educativo, pois quando abriram as portas para a entrada do público eu entendi o porquê de toda escola obrigar pais a assinarem papeis isentando a instituição de ensino da perda, roubo ou morte de algum aluno nos passeios. Foi um deus nos acuda, alguns se valeram do mais gordinho como escudo, pondo-o na frente como batedor, reproduzindo acidentalmente a famosa foto da Batalha de Iwo Jima, enquanto íamos até as frisas em busca de assentos. A cara de pavor de algumas professoras fazia jus ao que elas recebiam por hora aula.

Soaram os três toques: Riso, choro e soluço. Uma das Tias tentou fazer uma chamada improvisada, uma garota reclamou que perdeu o sapato. As luzes então se apagaram e a cortina abriu lentamente. Os atores se perfilaram no proscênio e depois se dispersaram. Um deles executou uma coreografia engraçada acompanhado de sons guturais. Alguém gritou que aquele era o Tavinho, outro moleque arrotou. Mais risos. Antes que nos déssemos conta de que punheta se tocava pelado e não vestido, uma sombra chinesa se agigantou por trás de nossos assentos murmurando:

Vamos embora dessa putaria!

Ou talvez eu esteja fantasiando e a diretora tenha dito somente:

Vamos embora dessa porcaria!

No trajeto de volta, felizes por nada, íamos batendo na lataria cantando vários sucessos do cancioneiro escolar: “A Barata da Vizinha”; “A chuva cai” e etc. Um dos meninos sugeriu uma greve de alunos por termos pago o passeio e não visto nada, a maioria gostou da ideia porque significava não ir pra escola. Outro garoto disse que os pais iam dar razão à diretora sobre a peça e sugeriu outro plano: era só ligarmos para o Ibama e dizer que a diretora tinha um papagaio em cativeiro no pátio que a escola seria fechada e multada. Seu argumento era que tinham fechado a firma do pai dele por isso. Uma menina nos mandou calar a boca para dizer que tinha certeza que Chaves era gravado num teatro de verdade, chegou a essa conclusão por causa das risadas das pessoas.

“Se essa porra não virar, olê, olê, olá! Eeeu cheeeego lá!”.

Demorou a se falar em teatro de novo por lá, porém não eram nada reconfortantes nossas novas experiências com a arte: todas as peças passaram a ser aquele festival de lugar comum carentes de humor. Nenhum personagem parecia esperto ou falava palavrão, pelo contrário, eram imbecis ao extremo e nunca notavam os vilões em seus esconderijos furrecas, o que gerava uma gastrite nervosa na turma e fazia com que torcêssemos sempre pelo outro lado, pelo erro, pela desordem, pela bagunça. Mesmo sabendo que no fim todo mundo ia ser morbidamente feliz para sempre, torcíamos contra os mocinhos.

Cid Brasil é escritor, algo entre José Sarney e James Joyce. 

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