Corrente do Mal (It Follows)

Hoje em dia, ao menos no cinema estadunidense, parece haver uma proporção inversa entre o tamanho do orçamento e a qualidade de um filme. Há quem diga que isso se deve ao fim das produções de médio porte, quase que completamente suplantadas nos grandes estúdios pelos filmes too big to fail, em que é inconcebível permitir que detalhes como originalidade ou relevância coloquem em risco a rentabilidade da empreitada. Seja como for, é fato que nos últimos anos o cinema indie nos presenteou com títulos como Corra!, Time Lapse, Coherence e Primer, todos eles, se não obras primas, ao menos preocupados em trazer algo de novo à sétima arte.

Corrente do Mal (título original: It Follows) é mais um exemplo desta tendência. Com fortes influências da estética dos anos 80, este filme se destaca, entre outras coisas, por um enredo ao mesmo tempo minimalista e repleto de possibilidades: Em Detroit, a universitária Jay Height é atacada com clorofórmio por seu namorado, Hugh, logo após fazerem sexo. Ela acorda amarrada a uma cadeira de rodas, em um estacionamento, onde ele explica que lhe passou uma maldição: a partir de agora, Jay será perseguida por uma entidade sobrenatural capaz de assumir qualquer forma. A entidade só pode caminhar, mas é impossível se esconder ou matá-la. Se Jay for apanhada, será assassinada, e então a entidade voltará a perseguir Hugh. A única maneira de livrar-se da maldição é passando-a adiante.

A direção de David Robert Mitchell é cuidadosa, com bastante atenção à fotografia. Sem grandes exageros, este filme apoia-se, sobretudo, na força psicológica do enredo. A trilha sonora é do compositor Richard Vreeland, conhecido como Disasterpiece, com experiência em composição musical em 8-bits (algo parecido com música de vídeo games velhos). Embora a trilha de It Follows não tenha sido composta em 8-bits, o estilo do artista casa muito bem com a ambientação. O filme suscita interpretações variadas, de uma simplória metáfora para o HIV até conjecturas sobre a efemeridade da vida. Uma vez nas mãos do público, a intenção do diretor – se é que havia alguma – não passa, é claro, de um detalhe.

Por Henrique Fanini Leite

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