Compras

Hoje pela primeira vez peguei um supermercado abrindo. Só conhecia os mercados na hortifrúti imprópria das segundas feiras e nas faltas típicas dos sábados pós-almoço. Poderia ser sete da noite lá fora, numa estranha semelhança entre o que finda e o que principia.
Do frescor e abundância supostos, apenas a intensidade clara das lâmpadas de halogênio, iguais a sempre, como todo resto, mas potenciadas pelos olhos àquela hora ainda despreparados para tanto dia.
Mas se não vi o que procurei nos produtos, talvez tenha testemunhado qualquer outra coisa rara em lugar do veludo dos pêssegos e da firmeza dos aspargos: a aparição da mulher ao final do corredor da perfumaria. Nem santa nem fantasma, visão surpresa – de uma para outra, flagrante assemelhado ao que se faz aos corpos despidos quando dentro dos quartos faz-se uma muda de roupa a portas entreabertas.
Vi a mulher com as pálpebras entreabertas, os dedos das mãos afastados para envolver melhor o cilindro, o indicador a pressionar a ponta à espera do jato, no peito a logo do supermercado. Um flagrante assemelhado ao que se faz aos corpos despidos quando dentro dos quartos… Quando os cabelos voaram, ela virou o rosto e olhou para mim. Depois devolveu o laquê à prateleira.
Quando passei rente, ela escolheu um hidratante de mãos. Agitou, apertou, e esfregou a palma no dorso e o dorso na palma e a palma no dorso até que o rastro sumisse. Por entre as latas de conserva, buraco de fechadura, vi quando tirou da prateleira o desodorante roll-on. Fugi para o corredor das águas à procura de lacres.
Ainda vou comprar um desodorante usado. Ainda vou comprar um perfume aberto. Coisas que não virão cheias nem completas. Nunca até a tampa. Já mordido, já lambido. E a ideia de posse como única garantia de exclusividade.
Uma mulher a deslizar pela esteira tudo que, antes, já passou pelo seu corpo. Sem fazer diferença entre mais ou menos eficaz, em desatenção ao preço, em prol da experimentação ou da possibilidade de fazer com que seu corpo por vezes invisível passe por outros corpos. Trocamos apenas silêncios. Guardei o troco sem conferir.
Hoje pela primeira vez peguei um supermercado abrindo. À primeira hora do dia um resto de luxúria se dissolve junto à madrugada.

Andressa Barichello nasceu em São Paulo. É mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa e co-fundadora do projeto de Coinspiração Cultural Fotoverbe-se.com no qual realiza vivências com artistas. É autora do livro “Crônicas do Cotidiano e outras mais” vencedor do prêmio Alejandro Cabassa pela União Brasileira dos Escritores do Rio de Janeiro, publicado em 2014 pela Scortecci Editora.

Arte: Nanna Ajzental

Gostou? Deixe seu comentário!