Companhia de Teatro

Segunda Crônica por Andressa Barichello

São meros encontros. Mas toda noite de sexta-feira, às sete em ponto, chamamos esses encontros de aulas de teatro. Jogos de improviso, exercícios de respiração, novas vozes e movimentos a surgir mais e mais do meu corpo e do corpo dos colegas.

Gosto, especialmente, de observar meus colegas. Com as costas contra a parede fico ali, no incomum de ter as canelas sem mergulho, num desafio de arranjo horizontal que me convoca a juntar os joelhos contra o peito e repousar o queixo neles, à espera. O piso parece grama ou conforto de sofá e, expectadora, junto três palmas ao coro das palmas que, improvisado sinal de palco, antecede o início de cada esquete. Mas não existe palco nem cenário: cadeiras e objetos garimpados de dentro das bolsas como único recurso além corpo e imaginação.

Cada encenação são apenas dois ou três minutos durante os quais eu nem pisco. Ainda não sei se é em razão de uma atenção aos trejeitos de personagens recém nascidos ou se não consigo mesmo é disfarçar meu encantamento diante de adultos que brincam na minha frente e na frente dos quais também já perdi a vergonha de brincar. 

O salão do oitavo andar, território real e imaginário, parece ponto de encontro secreto onde durante algumas horas é possível rebolar, estirar-se ao chão, fazer juras de amor e simular sons de tiros e explosões enchendo as bochechas. Todo ridículo implora e as onomatopeias dançam em conga, surgem às milhares e se movem como linha de formiga; sequer um gemido, se escapar, é tabu: a dimensão material dos corpos está reduzida ao tamanho físico dos pequenos insetos e os sentimentos comunicam por contágio. Caras e bocas são folhas verdes recortadas e carregadas por um caminho aberto entre as pedras, identidades sustentadas feito máscaras naturais que deixam vir à tona o embolado das vidas não vividas, o rebolado das entonações nunca testadas, o bem bolado das palavras não ensaiadas. O lugar das palavras saídas, das palavras-saída. Um fluxo organizado e possível, no qual fingimos ser fila de operários enquanto sonhamos desfile; rainha do formigueiro carnaval.

Somos adultos que uma vez mais fingem o que tanto já fingimos um dia, como se fosse a primeira vez: ser professora e aluna, duas bruxas em volta de um caldeirão, motorista e passageiro, dois homens em litígio pela demarcação de uma cerca em divisas controversas. E assim vamos fixando outros marcos, determinando diferenças, estabelecendo nossos próprios períodos em fronteiras móveis e por isso tão interessantes.

Isso de fingir depois de adultos parece que fixa sentido no dissimular, no ocultar. Mas, entre outras divisas controversas, o fingir é também inventar, supor, criar e demarcar. Vamos fingir que você estava lá fora e pisou num formigueiro? Que aqui existe uma porta e você entra por ela? Que eu sou sua mãe? Que o menino esconde um filhote de cachorro debaixo da blusa e ninguém na casa vê, preocupados todos que estão em tratar da sua pele empolada?

À deriva nesse mar empolado, houve quem conversasse e bebesse com os irmãos diante do caixão do pai. Houve quem, Romeu e Julieta, deixasse escorrer pela boca um frasco de veneno. Ratos foram pegos pelo rabo. Baratas derraparam com suas asas no chantilly de um bolo confeitado. E uma criança se perdeu na praia. Naquele dia todos procuramos pela menina, como formigas que dissipadas da fileira se espalhassem sem destino pelo jardim. Teria se afogado? Teria sido sequestrada? Enquanto o sorveteiro oferece picolés e o salva-vidas parece garantir o resgate pelo olhar, alguma coisa se debate e permanece sem resposta. O chão da sala se transformou em areia e as luzes quentes pareciam sol de verão. O desfecho iminente não dependia de mim mas era como se dependesse; o inconsciente coletivo parece que trabalha afinado, tão bonito quanto um improviso.

Enquanto os adultos se afogam com suas angústias e hipóteses, a protagonista retorna à cena para dar notícia de que tudo está bem. A menina desaparecida brincava alguns metros adiante, noutro ponto da orla, lá, depois da curva. A verdade é que atendeu ao chamado de outra criança e se afastou por desejo e distração – nunca esteve, de fato, perdida. 

São meros reencontros. Mas toda noite de sexta-feira, às sete em ponto, chamamos esses reencontros de aulas de teatro.

Andressa Barichello nasceu em São Paulo e reside em Curitiba. É mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa e co-fundadora do projeto de Coinspiração Cultural Fotoverbe-se.com no qual realiza vivências com artistas. É autora do livro “Crônicas do Cotidiano e outras mais” vencedor do prêmio Alejandro Cabassa pela União Brasileira dos Escritores do Rio de Janeiro, publicado em 2014 pela Scortecci Editora. 

1 Comentário

  1. Maria Aparecida Pinheiro fala: Responder

    Adorei, revivi cada momento…

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