Como Eu Terminei Esse Verão (Kak ya provel etim letom)

A mídia ocidental parece ter alguma fixação com Vladimir Putin. Como Eu Terminei Esse Verão, obra de Alexei Popogrebski, já foi descrita como uma “alegoria sobre a Rússia moderna, em que os dois personagens principais representam os dois lados do regime de Putin”. Qualquer um que assista esse filme, no entanto, terá dificuldade em encontrar qualquer referência aos “lados do regime de Putin” – seja lá o que isso signifique. Traduzindo o olhar esquizofrênico dos jornalistas do mundo livre para algo mais neutro, podemos afirmar que a obra trata simbolicamente do conflito geracional exacerbado pelo fim da União Soviética.

O jovem meteorologista Pavel Danilov passa o verão trabalhando como estagiário em uma estação meteorológica no ártico. Sua única companhia é o experiente Sergei Gulybin, acostumado a longos períodos de isolamento na estação. Pavel, urbano e educado, não sabe como se relacionar com Sergei. Chega a temer seu companheiro mais velho, que justamente por isso o despreza. Enquanto Sergei está em uma viagem de pesca não autorizada, a estação meteorológica central comunica a Pavel que a família do outro sofreu um grave acidente e que um barco está a caminho para resgatá-los. Convencido de que a os familiares de Sergei estão mortos, Pavel terá que sobreviver à ira do companheiro até que chegue o resgate.

Alexei Popogrebski faz parte da nova geração de cineastas russos, mas sua obra está bem ancorada na tradição de seu país. As paisagens do ártico são retratadas com fotografia reminiscente de Tarkovski, com algumas cenas convidativas à reflexão. Apesar disso, a luta entre os personagens é agonizante. A obra tem enfoque psicológico: é Pavel quem dispara o primeiro tiro, aterrorizado por Sergei. A partir desse ponto, qualquer tentativa de restabelecer um diálogo enfrenta a desconfiança mútua – drama que compartilhamos, tensos, na pontinha do sofá.

Por Henrique Fanini Leite

1 Comentário

  1. Sérgio Souza fala: Responder

    Muito bom! Desculpe a espontaneidade minha, mas, quando eu vi a frase em russo, eu pensei que “letom” fosse motel, escrito de trás pra frente. (Rs).

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