Colar de Marfim

Uma noite, sentei a beleza em meus joelhos. – E achei-a amarga. – E injuriei-a.
Rimbaud

Tiraram-lhe o riso logo pequena. Um safanão enquanto corria entre os pés de jabuticabas verdes e miúdas, caiu atordoada enlaçando seus próprios, descalços. Naquele tempo não havia raio X, o pai levantou-a do chão ameaçando uma segunda pancada. Era um senhor firme, acostumado a tratar cavalos, a quem devia um respeito tonto e ilimitado. Jurema passou duas semanas sem poder falar, comendo com dificuldade. A vizinha benzedeira amarrou em torno de sua cabeça um lenço bordô fedendo mofo: Não é bom gargalhar, criança! Sempre riu de forma seca, apática como a jabuticabeira rapelada.

Por qualquer bobagem, Jurema ficava sem graça. O peão da fazenda vizinha vinha à cerca com a mão direita dentro da calça, ela sentia as bochechas ardidas. Gaguejava ouvindo o homem elogiar seus seios em desponte, então agradecia sem levantar os olhos. Celerino roçava com as coxas no arrasta-pé, dizia ao ouvido: Gosto quando esfrega. Ela perdia seu olhar no horizonte, enrijecendo os lábios, morrendo de fora para dentro. Domingo à tarde chamou-a na cerca: Venha, Jurema, ver os bezerrinhos que acabaram de nascer. Ele segurava meia melancia, ofereceu seu garfo após limpar na camisa, muito gentil. Sozinhos na cozinha dos fundos, ela pensou se o pai aceitaria Celerino como seu esposo, depois sonhou com o primeiro beijo. O primeiro beijo foi no pescoço, depois na boca com gosto de fruta encarnada, depois em um lugar que Jurema sequer teve tempo de pensar se queria ou não. Nove luas minguantes depois, a barriga crescida trazia de uma vez dois menininhos. Passados três anos, um primo encontrou Celerino no norte, onde já tinha nova família. Interior era assim.

O sorriso, perdeu numa besteira: desacostumada com a cidade agitada, atravessando no meio da rua. No meio da rua! Onde já se viu?! Um acidente feio, foi o ônibus quem atropelou. (Mas não houve dolo, o pobre motorista desviava de uma bicicleta. Ah, essas malditas bicicletas! Sempre atrapalhando a fluidez dos belos automóveis que trafegam por Curitiba.) Boca murcha, dente-de-leão deflorado, os caninos que restaram para moldura. O incisivo inferior esquerdo e inútil, que voaria com um assoprão e foi arrancado no fim das contas. Perguntaram os solidários: “Está morrendo? Está morrendo?”. A boca inundada de sangue, vergonha e o resto dos ossos: “Cuspo ou engulo? Cuspo ou engulo?” Discreta, tragou sua vermelhidão e respondeu vampiresca com um aceno de cabeça que não se definiu como horizontal ou vertical. Jurema era só vertigem constante, fragmentos de dentes que expeliu um a um, com a experiência de uma boa comedora de melancias. Os incisivos superiores, prendeu a um colar que carregava sobre as clavículas, mãe de si. Este jamais foi roubado, visto que tinha valor nenhum.

Por Nanna Ajzental

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