Casa da Mãe Joana

Ela se chama Joana porque começaram a aparecer muitas joaninhas em casa; só não sei se antes ou depois que nasci, ela diz. Joana, mais conhecida como Joaninha, nasceu em 2012 e é uma alfacinha, porque ser alfacinha é mais divertido que ser lisboeta. Conto para ela que nasci no Brasil e que só desde janeiro é que estou aqui. Durante todo o resto do tempo eu estava lááá do outro lado do oceano, acredita?

 Até quando eu nasci?, ela pergunta com ares de surpresa.

Como se qualquer coisa muito importante pudesse se perder naquilo de tão importante que eu perdi, refaço cálculos e em tempo lembro que, bem, sim, em 2012 por acaso também estive aqui. Sei que Joana nasceu em fevereiro e que só cheguei em setembro, mas isso não tem relevância.

Ela também trapaceia? Talvez. Escondemos nossas mãos nas costas. Depois mostramos. Primeiro lanço dez dedos, mas recolho o dedão quando percebo que ela mostra três na esquerda e quatro na direita. Destreinada do joquempô, em vez de mostrar números, apresento o dorso das mãos vazias e tento consertar. Na brincadeira do bater-mão, nossos dedos-palito terminam por funcionar como roleta russa do destino. Não sei se ela viciou a contagem ou fez justiça quando loiro, moreno, careca, cabeludo, rei, ladrão, polícia, capitão, estrelinha estrelinha do meu coração será que ela vai casar sim ou não fez do sim não sim não um sim sim não sim.

Joaninha quer que eu case, mas diz que não quer se casar, só quer ter uma filha cujo nome será Inês. Que é o nome mais bonito. Que é o nome da sua melhor amiga. Ou vice-versa.

O que a sua melhor amiga tem de melhor é ser muito engraçada. E não sei se devo considerar que Inês é muito divertida ou apenas muito querida, se na mania de tentar dizer de mim pelas faltas e diferenças dessa língua com a outra, acabo de explicar à Joana que a graça no Brasil tem mais a ver com a coisa que nos faz rir do que com o dom das pessoas graciosas.

Ó, mas que engraçado! ela diz enquanto olha para o brinco de pedras verdes na minha orelha. Ela viu nos meus brincos dois abacaxis. Sei que as pedras mimetizam somente a coroa, mas gosto da ideia de coisas com partes faltantes poderem conservar nome e atribuição de coisa inteira; mesmo sendo a coroa a primeira parte desprezada ao descascá-lo, ela também é o abacaxi.

Falamos sobre frutas preferidas, espacates, vovozinhas, férias e as vantagens de se ter uma cama com escadas e um espaço para guardar roupas embaixo. Vi fotos de Inês, do menino por quem Inês está apaixonada, e dos primos, tias, primos de primos – de Joana e de Inês. Vi também fotos de Ruth Remédios, a professora do primeiro ciclo. Depois, recordações da ida ao zoológico em fevereiro – Joana beijou o golfinho no dia do seu aniversário e respondeu que o hálito dele era bom sim, o que acho que é mentira porque também já beijei um e ele tinha bafo de peixe, mas isso eu não disse. Joaninha sabe relevar defeitos mais do que eu nas coisas do amor.

A menina é exibida. Fôssemos brincar de casinha, ela seria a mãe e eu a filha – a casa seria dela. Mas só brincamos de mostrar quem somos. Chega minha vez de mostrar alguma coisa. Mas ela não quer ver as imagens das redes sociais, pergunta pelas guardadas no telefone, como fossem essas mais concretas – deve saber que o material bruto conta histórias mais interessantes.

Chegamos à cena de um urso polar empalhado como parte da decoração da vitrine de uma loja de móveis. E ela quer saber se, uau, ele é de verdade ou de mentira. Penso em dizer que é de verdade, só que já morto e empalhado, mas seria terrível falar de morte, mais ainda ter de explicar o que é empalhar… Vísceras, olhos de vidro, formol. O que é formol?

Não. Prefiro dizer que não sei, que fiquei em dúvida, mas ela é prática: mexia? 

Não há verdade sem gesto, afinal.

Cansada de ver fotografias cujas histórias tenho dificuldade em contar e a propósito do tema lojas, ela mostra uma foto sua dentro de uma loja no último carnaval. Tem na cabeça, encaixada, uma faca maior que a cabeça, toda ensanguentada. Os olhos dela estão fechados e a boca está aberta, pior que o urso polar. Ela mostra e ri, de certeza que é faca de mentira, afirma quase irônica.

Horrorizada e desviando meu olhar da tela, descubro que as dificuldades com o que havia detrás da vitrine eram só minhas.

Então minha criança fica de mal com Joana. Especialmente porque assim convém ao meu pescoço que já dói, ao entrecosto que me espera no prato e ao vinho já aerado na taça. Viro às costas sem mais e volto ao mundo dos adultos. Na conversa com eles interajo articulada, parecem gostar do que digo.

A partir de agora Joaninha, se quiser continue a cutucar minhas costas pelo resto da noite, não vai adiantar.

 

Andressa Barichello nasceu em São Paulo. É mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa e co-fundadora do projeto de Coinspiração Cultural Fotoverbe-se.com no qual realiza vivências com artistas. É autora do livro “Crônicas do Cotidiano e outras mais” vencedor do prêmio Alejandro Cabassa pela União Brasileira dos Escritores do Rio de Janeiro, publicado em 2014 pela Scortecci Editora.

Arte: Nanna Ajzental

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