Cadeira de Palha

Ilustração: Natasha Tinet

Segunda Crônica por Andressa Barichello

Para o mundo adulto, um mobiliário tem utilidade prática e decorativa. Móveis são móveis, arranjos onde apoiar as coisas e o corpo. Para uma criança, não. Para uma criança um mobiliário pode ter utilidades outras. Móveis são móveis, corpos onde apoiar o arranjo das coisas. Isso descobri na sala do apartamento dos meus pais, morada da minha infância.

A cadeira com assento e encosto trançados em palha – disposta pelas esquinas da sala – encaixou-se entre a cristaleira e o sofá depois da chegada da vitrola. Todo final de ano, acomodava-se perto da porta, dando espaço ao pinheiro de Natal.

Ripas de madeira se entrecruzavam debaixo do assento. Era possível engatinhar por baixo e, sorrateira, encaixar um pé, a me transformar em bicho-preguiça agarrada àqueles galhos polidos. Quem, melhor que eu, conhecia o cheiro dela?

Outro prazer: como por acidente, soltar-me ao tapete e, do chão, refeita da queda, analisar o conteúdo de suas entranhas. Era comum encontrar fibras do moletom vermelho do irmão e uma poeira mágica soprada à luz do sol. Certa vez, com uma canetinha, circundei um dos tantos hexágonos, no meiozinho, segredo compartilhado somente com ela. Foi a primeira transgressão.

Era bom, também, cavar os furos como se cada dedo fosse um bicho da maçã e a cadeira a própria maçã. Maldade fiz uma única vez: tentei, insistente, soltar uma das tranças e descobri que a palha, distante de um cabelo dourado de menina, era como farpa. Aprendi ali, que não se pode questionar impunemente o arranjo natural de certas coisas, de certos corpos.

Se todos podiam sentar e apoiar seus braços nos braços dela, só a mim é que a cadeira podia fazer ninar, embora a sensação dos braços dela tão rijos nas minhas pernas e nuca causasse o arrepio de fantasiar os braços de uma mãe imperturbável.

Mas de tudo que podia a cadeira, o máximo era, sem dúvida, sua faculdade antecipatória. Porque bastava segurar firme em seus braços para alçar meus pés ao seu assento e, assim, fazer de suas pernas compridas de cadeira, as minhas pernas de mulher. Lambadas e boleros na agulha, eu mais comprida, ela me dando pé, era hora de bailar: tecíamos eu e meu pai nosso crochê edípico a se esgarçar no tempo enquanto ela e suas tramas resistem, ainda, imutáveis.

Andressa Barichello nasceu em São Paulo e reside em Curitiba. É mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa e co-fundadora do projeto de Coinspiração Cultural Fotoverbe-se.com no qual realiza vivências com artistas. É autora do livro “Crônicas do Cotidiano e outras mais” vencedor do prêmio Alejandro Cabassa pela União Brasileira dos Escritores do Rio de Janeiro, publicado em 2014 pela Scortecci Editora.

Ilustração: Natasha Tinet

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