Bacurau

A terceira obra de Kléber Mendonça Filho, dirigida em conjunto com Juliano Dornelles, é mais um sucesso em uma das carreiras mais estratosféricas do cinema brasileiro. A obra representa uma quebra com seus dois filmes anteriores, deslocando-se de um ambiente urbano para o rural e exacerbando a dinâmica vilão/mocinho que já era sugerida em Aquarius. O filme venceu o prêmio do Júri em Cannes e está cotado para participar de quase todos os grandes festivais de cinema mundiais.

Comparado aos filmes passados do diretor, Bacurau dialoga muito mais com o cinema de gênero. A trama descreve os estranhos eventos ocorridos em Bacurau, um vilarejo do sertão nordestino. Com o suprimento de água cortado, sem internet e sinal de telefone e eventualmente apagada dos serviços de GPS, Bacurau terá de resistir a forças misteriosas que planejam sua destruição.

Um dos pontos mais significativos do filme é mostrar um sertão moderno, com internet, smartphones, tablets e todo tipo de bugiganga a que nos acostumamos. Essa quebra com a estética da fome é fundamental e muito bem-vinda para nosso cinema. Em estilo, críticos viram referências a todo tipo de obra estrangeira, o que inevitavelmente lembra Tarantino, sobretudo na segunda metade da narrativa. Se a ideia é ser irônico, não fica claro. Visto fora de um contexto político, Bacurau é irrepreensível: original, divertido, bem feito. Os gritos de “fora Bolsonaro” nas salas de cinema – que presenciei, inclusive – mostram como é impossível analisar a obra dessa forma. Perguntado sobre militância em Bacurau, Mendonça Filho afirmou “não estar vendendo o filme dessa maneira”, o que é na melhor das hipóteses uma enorme inocência, e na pior, cinismo. Usando vilões estrangeiros, auxiliados por brasileiros do Sudeste, e então nos levando àquele muito prazeroso, quase catártico, momento em que o povo brasileiro os mata, alimenta-se a mesma guerra de narrativas que levou Bolsonaro à presidência. Se o papel da arte é nos fazer questionar convicções, Bacurau não passa de uma excelente mercadoria.

Por Henrique Fanini Leite

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