AUTOCARRO 729

Para andar menos, resolvi que hoje não iria de metro, mas de autocarro. Nada mais é que o jeito português para dizer ônibus. O tempo perdido no pinga-pinga compensaria a pernada de 800m entre a estação e o destino. E dentro do autocarro, o verão, as pessoas mais juntas, o sacoleja-sacoleja, as discordâncias no abre-mais-essas-janelas… Boa chance para colher material de escrita.

Sentei no primeiro assento, solitário, à esquerda. É o mais alto, visão desimpedida do fluxo, quase como andar de carro no banco do passageiro, só que um carro grande, coisa de sorte! No mais, camarote para ver entrarem os passageiros das próximas dez paragens.

A pressa somada à ansiedade de ver muito multiplicam o tempo das demoras e talvez tenha sido isso a tornar eternos os dez minutos em que o ônibus esteve parado em frente à Praça da Figueira.

Não era ponto dele. Sem mais, o motorista ligou o alerta, libertou-se do seu nicho e caminhou até o final do veículo. Nunca tinha visto algo parecido. Nos primeiros trinta segundos que sucederam o fato, senti a adrenalina: alguma coisa extraordinária estava prestes a acontecer. Talvez alguém a usar drogas seria expulso? Uma carteira fora surrupiada e era preciso interceptação? Um homem assediador tinha de ser enquadrado? Uma criança viajava desacompanhada?

Ele parecia eufórico. Depois de colocar a cabeça para fora da única janela aberta, retornou ao seu posto enquanto olhava para um ponto qualquer do outro lado da rua. Os passageiros já começavam a se levantar, aquecendo o burburinho.

Terá o motorista um acesso de loucura? Talvez em prol de melhores salários e condições mais dignas fará reféns? Comecei a listar mentalmente todo um catálogo de tragédias envolvendo ônibus. E, nesse caso, que azar!, eu abancada no assento avizinhado ao dele já seria a primeira vítima. Pior: talvez o motorista acelerasse e fosse para a contramão ou até mesmo invadisse as calçadas da Avenida da Liberdade nas quais os idosos adoram sentar nos bancos de madeira para contemplar o movimento, de costas para o perigo.

O motorista, embora uniformizado, poderia ser um terrorista e tudo aconteceria, como sempre, na hora mais improvável. Três da tarde, claro, como ninguém suspeitara? Os homens estariam trancafiados em seus escritórios ou operando máquinas – inclusive ônibus –indisponíveis para frear a sanha de um jovem alto, forte e bem treinado a causar pânico entre os velhos, as mulheres e as crianças que em pleno horário comercial abundam pelas ruas e coletivos.

O meu pavor com aglomerações adquiria enfim uma resposta: era o meu carma.

O suposto motorista, então, fora até o fundo apenas para verificar que não havia ninguém capaz de ameaçar os seus intentos? O adolescente, dezoito anos no máximo, não pareceu oferecer ameaça, afinal, além de continuar vibrando o corpo com os fones de ouvido, o menino ainda não sabe a potência guardada nos braços magrelinhos puro músculo.

Os adolescentes nunca se dão conta de nada, meu Deus! Acham-se feios, entram em relacionamentos abusivos, valorizam todo tipo de idiotice e perdem a audição com esses malditos fones! Mas os adultos não são lá muito melhores, porque quando chegam a valorizar a capacidade de escuta às vezes já é tarde demais.

Agarrada à minha bolsa, desejei estar do outro lado do Atlântico. E lamentei não ter realizado uma recarga no meu telefone. Para economizar quinze euros perdia a chance de ter rede para enviar um pedido de socorro por chamada ou dados.

O meu corpo, inservível como um aparelho sem crédito, incapaz de um protesto, de um movimento ainda que enxuto. A impossibilidade de correr e de gritar diante de uma ameaça; não foi sempre assim nos meus pesadelos?

Mas nem bem a ameaça pôde se desenhar como tal e o motorista, como diante de uma gente chata, bateu no volante, virou as costas e gritou: A rendição, a rendição! Só estou à espera de que venha o meu colega render-me!

Desconfio que o inconsciente dele sabia que ali dentro havia brasileiros. E por isso foi prudente ter construído a oração exatamente daquele jeito, incluindo o meu colega antes do render-me!

Eu quero ser, ainda, como esse sujeito: dominar a direção de modo provisório, ter nascidas no íntimo as palavras certas e não ensaiadas, deixar-me render.

A pressa somada à ansiedade de ver muito, multiplicam as hipóteses quase sem freio. Se ao motorista em espera seguiu-se a chegada do colega atrasado para uma simples troca de turno, de minha parte não fui, ainda, rendida; porque rendi a mim mesma, insubstituível, ao que me rendo sempre: fantasias.

Andressa Barichello nasceu em São Paulo. É mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa e co-fundadora do projeto de Coinspiração Cultural Fotoverbe-se.com no qual realiza vivências com artistas. É autora do livro “Crônicas do Cotidiano e outras mais” vencedor do prêmio Alejandro Cabassa pela União Brasileira dos Escritores do Rio de Janeiro, publicado em 2014 pela Scortecci Editora.

Arte: Nanna Ajzental

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