Aula Experimental

 por Andressa Barichello

Não sei o que é ter problema nos joelhos. Minhas articulações não doem. Parece não haver maiores desgastes nas minhas juntas. Também nunca entendi a dor daqueles que romperam um ligamento.

Os meus problemas sempre tiveram a ver com a dificuldade de genufletir diante de verdades que não posso recusar, com as ideias que não consigo articular e com as ligações que teimo em conservar intactas.

Você pensa demais, mulher.

Nessa hora, qual dica mais sábia que um “vai mexer esse corpo!”?

Na aula de dança contemporânea era preciso trabalhar em dupla: fazer movimentos com pés e mãos ou em apoios menos óbvios como dedos e calcanhares enquanto o outro observava.

O que fazer do próprio corpo quando alguém espera dele que dance?

Engatinhei, fiz uma meia cambalhota, deitei em forma de estrela (um movimento sugerido pela professora), fiquei em prancha como auge da minha resistência física. E depois de três minutos cessava o meu esforço criativo, testado ao limite.

Era chegado o momento de estar sentada e confortável para apreciar a dança daquela outra. Seus movimentos não eram ensimesmados. As pernas não obedeciam a nenhum círculo imaginário e restrito. O tronco fazia curvas, a bunda produzia ondas, seus braços desenhavam fumaça, distante, tanto tanto, da minha tentativa robótica, do meu brincar de estátua viva em câmera lenta.

Tentei dançar pensando. Tentei criar uma coreografia e executá-la. Fui mexer o corpo e continuei tentando fazer dele o prolongamento das minhas ideias fixas. Desarticulações. Encurtamentos.

Mas uma mulher deu-se à cena, cena inaugural. Aprendi com ela como é que se faz. Aprendi, no chão, que o corpo é também linguagem. E que incluir alguém num novo signo não é coisa que se ensina, mas que se transmite. Sutil como aprender a falar – e a amar. Na concha formada pelos ossos do colo dela, se equilibravam as minhas primeiras palavras.

Andressa Barichello nasceu em São Paulo e reside em Curitiba. É mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa e co-fundadora do projeto de Coinspiração Cultural Fotoverbe-se.com no qual realiza vivências com artistas. É autora do livro “Crônicas do Cotidiano e outras mais” vencedor do prêmio Alejandro Cabassa pela União Brasileira dos Escritores do Rio de Janeiro, publicado em 2014 pela Scortecci Editora. 

1 Comentário

  1. Sérgio Souza fala: Responder

    Ótimo, Andressa! Revelo que uma passagem sua eu copiei e colei no meu arquivo de frases bonitas:
    “Os meus problemas sempre tiveram a ver com a dificuldade de genufletir diante de verdades…”
    Parabéns!

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