Assunto de Família

Quando se fala em cinema do Japão, podemos lembrar de algumas de nossas animações favoritas, ou talvez algum filme grotesco de horror. O que dificilmente vem à cabeça é um drama familiar de cunho social, reminiscente de alguns dos grandes filmes brasileiros. Em Assunto de Família, é exatamente isso que Hirokazu Kore-Eda nos traz: um incomum retrato das dificuldades econômicas em um país normalmente visto como um dos mais ricos e desenvolvidos.

Hatsue pode se considerar uma pessoa de sorte. Diferente de muitos idosos no Japão, ela não vive sozinha: compartilha a pequena casa – e a pequena pensão – com quatro familiares. Moram com ela Osamu, um trabalhador da construção civil, sua esposa Nobuyo, Shota, filho dos dois e Aki, irmã de Nobuyo. A renda do grupo não é suficiente para pagar as contas, forçando Osamu e Shota a cometer pequenos furtos, para os quais possuem um código de sinais. Voltando para casa em uma noite, os dois se deparam com uma pequena garota trancada para fora da casa do vizinho. Não há ninguém dentro da casa, então Osamu resolve abrigar a menina, talvez por mais tempo do que esperava.

Assunto de Família é um filme amplo, tocando em temas como a velhice, a pobreza, as rígidas convenções sociais japonesas, prostituição, crime e maternidade. Estas ideias, aparentemente distantes, são costuradas pela trama principal, que envolve Osamu, Shota e a garota que resgatam. Kore-Eda trabalha a narrativa em dois planos. O primeiro é o plano dramático, em que importam as relações interpessoais e o destino da garotinha resgatada. O diretor contrasta o convívio feliz da família pobre e inconvencional com a seriedade triste dos outros personagens – do lojista aos colegas de Osamu. Ao mesmo tempo, nos são reveladas informações que dão a entender que aquela família não é o que parece. Percebemos algo de errado, diferente da tensão de um suspense ou da dúvida de um mistério, quase como um pressentimento. O desfecho nos mata a curiosidade, mas é difícil não pensar no ditado: as vezes, a ignorância é uma benção.

Por Henrique Fanini Leite

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