As Vozes

Poucos dos milhares de leitores de Persépolis, autobiografia em quadrinhos da iraniana Marjane Satrapi, sabem que a autora é também uma diretora de sucesso. As Vozes, quarto longa de Satrapi, teve sua estreia no festival de Sundance e foi disponibilizado diretamente para serviços de streaming após uma exibição no Festival Internacional de Toronto. Apesar da recepção positiva da crítica, permanece um filme praticamente desconhecido pelo público em geral.

Antes de ser produzido, o roteiro de As Vozes foi listado em publicações especializadas como um dos mais promissores durante vários anos. A premissa básica é bastante simples: Apesar do trabalho entediante em uma fábrica de banheiras, Jerry está sempre de bom humor. A razão nos é revelada quando ele volta para casa e começa a conversar com seu gato, Sr. Bigodes, e seu cachorro, Bosco, que respondem de volta, cada um com sua voz e personalidade. Não, Jerry não é um novo Dr. Dolittle – ele é esquizofrênico, e não toma seus remédios há algum tempo. Se no começo as vozes eram companhias bem-vindas, aos poucos suas sugestões tornam-se macabras.

Vários aspectos de As Vozes merecem destaque, a começar pela maneira como a história é narrada: do ponto de vista do assassino. Com excelente uso de cor e fotografia, a direção de Satrapi oferece uma interpretação interessante dos processos mentais de um esquizofrênico. As mudanças de estilo são abruptas, desencadeadas pelo uso ou abstenção dos medicamentos. As vozes dos animais de estimação de Jerry, numa releitura cômica do “anjinho e diabinho”, refletem a confusão mental do protagonista. Essa característica, combinada com uma performance versátil de Ryan Reynolds, resulta em um filme coerente e com substância, ainda que muito exagerado. Para aqueles capazes de tolerar seus aspectos mórbidos, As Vozes é um exemplo de direção e roteiro, engraçado e original.

Por Henrique Fanini Leite

1 Comentário

  1. Tania fala: Responder

    Interessante! Vou assistir

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