Arca Russa

Embora o Cinema Russo tenha produzido algumas obras primas durante a década de 90, como O Sol Enganador, é fato que a catastrófica transição para uma economia de mercado prejudicou a sétima arte no país. Com a recuperação econômica, a escola russa de cinema vem reconquistando seu lugar de honra, mantendo a tradicional ênfase em aspectos artísticos e filosóficos (embora, é claro, a realidade capitalista tenha afetado este tipo de produção). Filmado em 2002, Arca Russa foi um dos primeiros sinais desse ressurgimento. Este filme apresenta a rara combinação de ousadia num plano técnico/artístico com uma experiência genuinamente agradável. A obra foi aclamada mundialmente por ser o primeiro longa metragem filmado numa tomada só, de noventa e sete minutos.

O enredo de Arca Russa é pouco tradicional e aberto a interpretações. O filme acompanha um homem vestido em trajes do século XIX, conforme ele passeia pelos grandes salões do museu Hermitage, em São Petersburgo. Ele é evidentemente um nobre, um marquês ou conde, com bastante conhecimento de arte. Em cada sala, o homem se depara com algum evento passado (ou futuro, do ponto de vista do personagem), desde cenas do cerco a Leningrado até os luxuosos bailes da época de Catarina, a grande. O plano da câmera representa a visão de um segundo personagem, não identificado, que interage com o personagem principal. Embora fale russo, o marquês é francês, e interpreta de seu ponto de vista histórico/cultural as cenas apresentadas. Dessa forma, é estabelecido um diálogo de muitos níveis, através do qual o diretor Alexander Sokurov é capaz de evidenciar diversos contrastes nas visões de mundo Russa e da Europa Ocidental.

Estilisticamente, o filme tem certa proximidade com É Difícil Ser um Deus, mas é muito mais claro em termos de enredo e, francamente, muito mais interessante. Fora a dificuldade técnica, com mais de dois mil atores envolvidos, Sokurov supera as limitações de tempo e espaço para formar um painel histórico de seu país com grande destreza narrativa. Enquanto boa parte da (assim chamada) arte de vanguarda contemporânea busca a polêmica, o absurdo e o tétrico, muitas vezes se perdendo nos próprios conceitos e incapaz de se comunicar com a audiência (e, para piorar, assumindo uma postura arrogante em relação a isso), esta obra magistral mostra que verdadeiras obras primas não precisam de escarcéu para serem relevantes.

Por Henrique Fanini Leite

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