Aprenda a Sujar as Mãos Para Não Limpar o Bolso

Segunda Crônica por Cid Brasil

Toda criança tem aqueles rompantes de achar que pode tudo, desde dançar o É o Tchan no Egito para as visitas até re-desenhar o teto da Capela Sistina. Esses rompantes nada mais são do que um efeito colateral da ausência de um adulto cético por perto. Dos delírios infantis só não escapei de um: o de aprender a tocar violão.

Era no tempo dos acústicos MTV e na escola os chatos do violão ainda não eram considerados nocivos, apesar do envolvimento com drogas pesadas como Capital Inicial e Kid Abelha. Na minha rua havia inclusive um professor de música cujos métodos de ensino eram pouco ortodoxos. Notando minha lentidão em aprender Asa Branca, ele comentou que meus dedos eram bastante travados e acrescentou que um bom exercício seria lavar pratos. Ajudaria a amolecer seus dedos, disse o professor, prometendo que logo chegaríamos ao módulo 2, Legião Urbana. Quando contei para minha mãe que ainda não sabia tocar “Pais e filhos” mas em compensação sabia desengordurar panelas como ninguém, a mensalidade foi cortada na hora e acabei me conformando em ficar no módulo 1 do violão, afinal, vá lá saber que metodologia seria aplicada para aprender a tocar bateria ou flauta doce.

Agora adulto, há momentos em que me arrependo do dinheiro e do tempo investido nessas aulas de garfo, panela e violão e penso se não teria sido mais útil fazer um curso de mecânica de automóveis, por exemplo. Eis um curso que faz falta, principalmente quando percebo que os constantes socos no volante não estão mais resolvendo o problema da partida ou que as encaradas para o carburador já não o despertam mais. Ainda assim, haja paciência para o pobre carro em aguentar ser cobaia de horas de vídeo aula assistidas no Youtube e outros métodos metafísicos que tento empregar até entregá-lo aos cuidados de um desconhecido.

Reluto bastante encarar uma oficina mecânica porque médicos de automóveis são como psicólogos ao contrário, se utilizam do desdém, do confronto e de uma imposição de macho dominador para mostrar que por trás de cada gota de óleo diesel, de cada peça atravessada espertamente, há uma sabedoria rústica que entra em combustão ao ser questionada por um reles motorista frango que ousa duvidar ou saber mais do que ele sobre carros. Ainda mais se for um rapaz como eu, que passou a infância em colégios particulares, tendo aulinhas de violão e dançando É o Tchan no Hawaí.

Então temos um MacGyver aqui! Disse o Senhor Coisa, o mecânico, ao notar os grampos de cabelos segurando as mangueiras do filtro de ar.

O senhor Coisa em questão é o dono do estabelecimento de nome bíblico ornado com mulher pelada e o Vasco de 97 pelas paredes – segundo ele o apelido de Coisa era por causa da careca e do seu tamanhão, que o assemelhavam ao personagem homônimo do Quarteto Fantástico, aquele feito de pedra – daria um ótimo sósia do Sargento Pincel, já que dispunha de um vasto bigodão.

Sentindo-me acuado, a certa altura parti para o embate e falei: Olha aqui, senhor, não é com piadas e insultos que o carro vai parar de engasgar; resolva aí o problema que a tarde venho buscá-lo. Dinheiro não é problema (soltei essa já me arrependendo em seguida).

Ao voltar na hora marcada, o Coisa parecia disposto a querer desempatar aquela esquete dos Trapalhões que parecíamos ensaiar. Contou que havia percebido que dinheiro não era mesmo problema para mim, já que usei palitos de fósforos de boa qualidade no lugar de parafusos, próximo ao radiador. Sem esperar que ele comentasse o restante da extensão da minha cozinha no motor do carro, perguntei qual era de fato o problema e ele disse que era a correia dentada. Demos uma volta, como ele mesmo disse, sem trocadilhos, “para sentir o serviço”, e na hora que íamos acertar o preço ele perguntou que diabo de música era aquela que tocava (ele havia ligado o toca discos). Tocava Tom Waits.

É música gospel americana, respondi, lá do Mississipi, terra santa!

Foi como se uma Carla Perez tivesse saído da parede e se prostrado a frente do homem. Ele se calou na hora e daí por diante mudou da gasolina pra água, me poupando de suas tiradas e comentando coisas técnicas de automóveis, sempre pontuando, aqui e ali, como deus era maravilhoso (em capacitar os homens para criar parafusos e fluídos de radiador) e de como deus falava às vezes por linhas tortas (ou vozes roucas, comentando do Tom Waits). Depois contou que fazia só dois anos que era dono da própria oficina, isso após uma vida dedicada a trabalhar para os outros em concessionárias e oficinas de grande porte. Falou ser evangélico há um ano e que graças a igreja tinha largado a bebida e voltado para a mulher.

Quando descemos, perguntou se eu aceitaria um cafezinho e fomos até seu minúsculo escritório improvisado, onde uma dessas máquinas de nespresso, que mais parecem um robô engraçadinho, jazia soberana e parecia ocupar todo o espaço lá dentro. O cara sabia onde investir o dinheiro e a máquina estava impecável. Conversamos mais algumas amenidades inofensivas e acredito que ganhei seu respeito ao tê-lo feito acreditar que eu ouvia música para deus. Mesmo assim ele cobrou caro pela correia dentada, pela troca de velas e pelos nespressos.

Cid Brasil é escritor, algo entre José Sarney e James Joyce.

Ilustração: Natasha Tinet

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