Ao Pé do Vento

Ao pé do vento

Os pés pendiam da pedra em formato de cogumelo, alta, mas larga apenas o suficiente para duas pessoas. Sentavam-se lado a lado, as pernas encostando. Na coxa da menina repousavam as mãos dadas, dedos entrelaçados.

Quer dizer que me ama, pensou a garota, olhos perdidos na paisagem. Encontravam-se num plateau em formato de ponta de flecha, ladeado por penhascos que se encontravam a frente, como rios desembocando na grande planície mais abaixo. Um pouco a direita, percebia-se uma fina névoa marrom, tingida de um tom róseo devido ao ocaso, que pairava por sobre a metrópole ao longe. Ventava muito forte, mas de forma irregular. Quando cessava, era possível escutar os passarinhos cantando, alguns em longos pios de um só tom, outros em complexas melodias estacadas. Pareciam conversar com os insetos, que respondiam em igual intensidade, mas com timbres mais vibrantes e percussivos.

Acostumados com os barulhos da cidade, aquela cacofonia resistia a tornar-se simples barulho de fundo. Em silêncio, ocupavam-se em apreciar a melodia do vento e dos animais, o que silenciava os pensamentos de forma tão natural a ponto de ser praticamente imperceptível.

Em meio a tudo aquilo, o barulho repetitivo do alarme do celular pareceu ainda mais irritante.

“Conseguimos! ” Disse a garota. “Um minuto inteiro em silêncio. ”

O garoto sorriu e fingiu comemorar. Depois ficou sério e se aproximou, tentando pentear uma das mechas esvoaçantes de seu cabelo. Se olharam com intensidade, prontamente quebrada pelo tom jocoso: “A melhor maneira de entender a vida é ficando em silêncio.”

A princípio a garota ficou séria, mas gargalhou logo que entendeu a intenção. “Que filósofo. Podia vir num biscoito da sorte isso aí. ”

 “Mas eu fiquei um pouco envergonhado, ” concedeu o garoto, balançando a cabeça abaixada de um jeito teatral.

A garota beijou-lhe a bochecha. “Já passou dessa fase, Gus. Não precisa ter vergonha de ficar em silêncio comigo. ”

“Então acho que precisamos praticar mais. ”

Novamente, a garota sorriu. “Ok. Vou colocar mais um minuto. ”

Fez como dito, mas dessa vez Gustavo não tinha intenção de permanecer em silêncio. Esperou que o vento ficasse forte e então sussurrou, alto o suficiente para que a garota percebesse que falou, mas não o bastante para que entendesse o que fora dito.

“Eu te amo, Camila. ”

 A garota se virou, indagativa, mas esperou o sinal do celular para falar. Tentava sem sucesso imitar uma cara de brava.

“Você não ficou em silêncio! ”

“Claro que fiquei! ”

“Não ficou, não! Seu safado, o que foi que você disse? ”

“Já falei que não disse nada. ” Mas Gustavo não sabia mentir; o sorriso não saía do rosto.

Camila deu-lhe alguns tapas de brincadeira, mas acabou imobilizada e alvejada por cócegas. Retrucou com alguns beijos e com beliscões de unha, os mais doloridos. As gargalhadas e exclamações ecoavam nas paredes dos penhascos, misturando-se com o vento e com os barulhos dos insetos. A naturalidade com que interagiam denunciava uma inocência tão doce e sincera que qualquer um que os visse teria dificuldade em acreditar que não fossem eles também como os pássaros voando em círculos pelo céu ou as lebres escondidas nos arbustos. Quando pararam, braços e pernas entrelaçados num complexo impasse, ofegavam. Passado o efeito das brincadeiras, sentiram crescer um tipo de tensão, uma necessidade óbvia, mas que, por algum motivo, ainda lhes causava insegurança. A tensão rapidamente virou embaraço, e logo voltaram a contemplar a paisagem.

“Esse nosso silêncio me lembrou uma história do Tchekhov…”

“Não tente mudar de assunto! Silêncio uma ova, você falou alguma coisa. ”

“Tá, eu confesso: falei. Acho que temos que tentar de novo. ”

Camila olhou com desconfiança fingida, ambos expressando uma cumplicidade similar à de crianças prestes a fazer uma travessura. “Mais um minuto, então.”

Novamente, Gustavo esperou o vento ficar forte e sussurrou.

“Te amo, Camila”

E novamente a garota fingiu estar brava, mas dessa vez beijou Gustavo por todo o rosto, mordiscando seu queixo e seu pescoço, depois concentrando-se nas orelhas, que lambeu. Os arrepios fizeram Gustavo se encolher e, percebendo o efeito dos carinhos, Camila sussurrou:

“Fala pra mim, Gus, que foi que você disse? ”

Mas o garoto apenas sorriu daquele jeito travesso. “Não disse nada! Juro pra você. Fiquei calado feito pedra. ”

“Disse alguma coisa, sim! ”

Repetiram-se as cócegas, os beliscões, os carinhos e as risadas, dessa vez mais intensos e frenéticos.

“Que foi que eu disse, então? ”

“Você falou… Era alguma coisa comigo, eu escutei meu nome. Tenho certeza. ”

“Não falei teu nome, não disse nada! ”

“Disse! Você falou que me… que…”

“Que o quê? ”

Camila fingiu um suspiro frustrado, virando os olhos e soltando os ombros. “Vamos repetir, então. Não te deixo sair até você conseguir ficar calado. ”

Assim fizeram. Pela terceira vez, Gustavo declarou para o vento o amor que sentia por Camila, mas ao final do período a garota não sorria. Não tentou lhe beijar ou fazer cócegas, tampouco. Estava séria. Gustavo acompanhou com os olhos enquanto a garota juntou as mãos dele entre as suas, aproximou-as da boca e murmurou ela também o seu segredo.

Dedos entrelaçados, esperaram o anoitecer sem dizer mais nada.

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