Animais Americanos

Bart Layton tornou-se célebre no mundo do cinema já com seu primeiro filme, o documentário “O Impostor”. Em Animais Americanos, que estreou no festival de Sundance de 2018, Layton usa a bagagem adquirida em sua obra anterior para criar um filme híbrido, com aspectos de drama e documentário.

A obra retrata o assalto à biblioteca da Universidade Transilvânia, no Kentucky, onde se encontram alguns dos livros mais raros dos Estados Unidos. O crime se deu em 2004 e teve grande repercussão devido a sua natureza insólita: foi cometido durante o dia, por jovens de classe média, estudantes universitários – um deles da própria Universidade Transilvânia. Layton mescla a dramatização dos eventos com depoimentos reais das pessoas envolvidas.

Animais Americanos é um filme envolvente, sobretudo por sua atmosfera fatídica. Nem mesmo o mais entusiasmado dos espectadores chega a acreditar que o assalto tem alguma chance de sucesso. O depoimento dos pais, já no início do filme, não deixa dúvidas: eles serão presos. O que verdadeiramente nos intriga é: até que ponto eles foram? Quais foram as consequências? Isso, o filme revela paulatinamente e, a cada passo, introduz comentários daqueles que retrata. O resultado é uma obra balanceada: somos capazes de entender os jovens, ao mesmo tempo em que reconhecemos a gravidade daquilo que fizeram. O diretor contrasta discurso e realidade, ideias e fatos, em dois planos. O primeiro é a história narrada: se no papel não havia como o assalto dar errado, na prática absolutamente nada ocorre de acordo com o plano. Mais que isso, no entanto, Layton faz questão de mostrar incongruências nas próprias narrativas dos envolvidos: cada um oferece versões diferentes para alguns pontos chave da história. Quem sabe em algum lugar do disse-não-disse, do fez-não-fez, se encontrem os porquês, as motivações. Em nós resta a dúvida e, sobretudo, a perplexidade.

Por Henrique Fanini Leite

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