Água Dura

Nas margens de cimento, as águas turvas do rio batem como ondas. Vejo a linha escura marcada na pedra, marca oscilante, repetição impossível: a marca nunca contorna o que espero, é sempre aquém ou além dos limites imaginados. Como adivinhar a altura do que não se adivinha quais controles? O imponderável é que rege as medidas do Tejo.

Com os pés sobre a superfície rígida do passeio sou como a pilastra em cujos pés crescem verdes. Observo a paisagem, ouço um som que não sei se dos trens nos trilhos, da biruta ao vento ou qualquer coisa a oscilar na bicicleta de uma criança. Entre tantos corpos oscilantes, a minha rigidez, pilar, quer trabalha a espelho da estrutura da ponte que pende.

Pender é estar suspenso, meio resolvido ou apenas o que os nossos corpos faziam de um lado para outro quando dançávamos música lenta fazendo dos braços umas pontes esticadas até o outro lado, os ombros do nosso par? Será que toda ponte só serve para ligar pares? Entre o que é díspare, só o rio? Rio. E choro. Mas, a depender do acento, choro é lágrima ou é música.

Uma ponte, qualquer delas, não importa, faz música: trens e carros assobiam, uivam, sopram. Uma ponte, qualquer delas, há que aguentar sopros, há de ser como os prédios feitos para aguentar ventanias e terremotos.

Quando quero gostar menos de Lisboa penso no terremoto de 1755, mas eu que tenho medo de tudo nunca tive medo de namorar essas águas um dia levantadas. Eu também nunca tive medo de namorar essa linda ponte chamada 25 de abril. Quando tudo aconteceu nem ela nem eu existíamos, mas Belém já era Belém, assim dizia a carta de Pero Vaz de Caminha na qual ando viciada.

Ainda tudo fosse ontem e não há séculos, seria apenas passado. O passado são as águas, nunca as margens. O passado são as pessoas. A ideia de rio, de ponte, de superfície e de pilar é o presente. E é nessa ideia onde vivo. E gosto tanto dessa ideia que nem sei como ocupá-la inteira. Talvez caminhando com a ponta de um pé a encostar no calcanhar do outro, a mesma cena dos artistas de circo quando caminham em cabos de aço. O nome dessa arte é funambulismo. A palavra vem do latim funambulus, “o que anda sobre a corda”, de funus, “corda”, mais ambulare, que é andar, caminhar. Todo mundo já viu mas quase ninguém sabe o que é funambulismo, talvez porque seja comum esquecermos a origem das palavras e das coisas.

É assim quando dizemos que o Brasil foi descoberto quando ele já estava lá. Quando dizemos que os indígenas não eram civilizados. Quando dizemos que foi revolução o que foi golpe. Quando dizemos que meninos vestem azul e meninas vestem rosa.

O funambulismo é uma ideia, é o estar entre margens, como a ponte, como os meus dois pés a tentar ocupar o presente, sempre tão largo e tão curto. A distância percorrida e a altura escolhida dependem da habilidade do equilibrista. Vejo uma caravela nas águas do Atlântico. Vejo um índio a lutar com os seus adereços, vejo a mim mesma a tentar equilibrar as palavras percebendo que qualquer delas, ao falar de índios, pode ser torta e ofensiva como a flecha quando entra na carne mesmo que a ofensa não seja a intenção, só o resultado do que voa a partir do arco.

Os prédios feitos para aguentar terremotos são rígidos mas balançam, devem formar no ar um arco invisível, abóboda curva sobre os pilares verticais. O maneio de um corpo no Brasil chama-se molejo. E também malemolência, ginga, bamboleio. Mas em Portugal não há, aparentemente, palavra para isso. Haverá?

O calor do sol é meu embalo, balanço devagar, os olhos fechados. Imagino Pero Vaz de Caminha a chegar a Porto Seguro, que só ganhou esse nome por ter sido, de fato, porto seguro. No meu porto seguro começo a arquejar. Valsa, transe, canção de ninar. Abaulados, são os cascos, a circunferência dos cocares. Mas arcar também é verbo intransitivo.

Na despedida, os olhos na água. Movimento dentro do movimento na superfície uma água-viva. As águas vivas são o grande perigo dos mares. Na mitologia grega quem quer olhasse para Medusa era transformado em pedra. Mas disso também não tenho medo.

O meu corpo é pilar, é ponte, é molejo.

Ouço Caetano cantar Odara. Canto e danço que dará.

O vento espalha os meus cabelos cortados. É impossível prendê-los. Também assim balançam os tentáculos dela, água-viva

 

Andressa Barichello nasceu em São Paulo. É mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa e co-fundadora do projeto de Coinspiração Cultural Fotoverbe-se.com no qual realiza vivências com artistas. É autora do livro “Crônicas do Cotidiano e outras mais” vencedor do prêmio Alejandro Cabassa pela União Brasileira dos Escritores do Rio de Janeiro, publicado em 2014 pela Scortecci Editora.

Arte: Nanna Ajzental

2 Comentários

  1. margareth aparecida leite fala: Responder

    Gostei muito, parabéns!

  2. Tive o privilégio de ouvir a autora ler esta crónica, ao vivo, em Lisboa. Vim aqui relê-la porque é um texto que precisa de uma e outra e ainda outra leitura… Intenso, sensível. Belo.

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