Adoção

cachorro

Aí quando o cachorrinho da vizinha morreu (um cão de rua, machucado, foi recolhido por compaixão, não tanto por pedigree), tomei providências. Vesti minha fantasia de Pluto e bati na sua porta.

Ela abriu e me viu deitado, chorando caninamente. Meus olhos esboçavam tristeza. De pronto me acolheu, balançando a cabeça. Entrei em seu apartamento de quatro, me trouxe uma tigela de ração e um pouco de água. O dia era frio. Fez carinho, beijou meu rosto, Fofucho totoso, coisa linda!, e colou minha cabeça junto ao peito. Uma vizinha linda: corpo lipoescultural, olhos azuis, seios firmes, cabelos lisos. Uns vinte e três com corpo de dezessete. O perfume me fazia balançar o rabo eriçado. Andava de quatro atrás dela, lambendo seus tornozelos. Uma mulher toda Paris, enquanto me esbaldava em Miami.

À tarde, quando ela saía para o trabalho, eu caminhava nas patas traseiras. Assistia Saia Justa, esquentava minha ração no micro, misturava um merlot chileno na tigela de água. Porém, continuava confuso entre compaixão, amor, tesão. Meus pensamentos eram roda-punk, e o céu lá fora sempre cinza.

Mais um uísque?

Sim, obrigado.

Gelo?

Não. Obrigado. Onde eu estava mesmo? Ah, sim! Os momentos de alegria, vou falar. Aconteciam à noite. Ela colocava seu baby-doll de seda, não usava calcinha. Deitava na cama, de bruços, mexia as pernas. O pijama deslizava para cima, mostrava tudo. Eu chorava no tapete, ela me puxava para a cama. Me abraçava, beijava, eu lambia tudo. Ela gemia. No dia seguinte, banho sem tosa no pet shop do bairro. Secador quente, fitinha na orelha. Cheirava o traseiro das cadelas, tentava uma cópula. Até o dia em que fui chutado por uma madame enfurecida. Feridas se abriam, minha dona nunca soube dos maus tratos sofridos naquele açougue.

Você era feliz?

Ninguém é feliz num pet shop. Andava pela casa sozinho: era um animal, e a música de Brahms me fazia ter incontinência urinária. Se é que existe tal doença para um cão, não sei, mas sofria. Não havia cadelas, não havia corridas atrás da bola, meus dentes caninos não abriam o sorriso.

E como perdeu essa vida de conforto?

Ela trouxe um carinha. Começaram a se beijar em meio ao jornal nacional, no sofá da sala, e antes que ele metesse no big brother mordi sua canela, fiz correr sangue. Ele me chutou e quebramos quase tudo. No dia seguinte, ela chamou uma van. Fui recolhido, passei dias numa gaiola, passei dias repensando minha vida. Até um pastor veio me ajudar. Fuji. Vivi na rua, junto aos fumadores de crak, revirando lixo.

E chegou a qual conclusão?

Vou pro interior. Uma cidade pequena, menos que mil habitantes. E vou usar minha fantasia de avestruz. A família eu já conheço, gente simples. Criam avestruzes. Só sei que andar de quatro nunca mais.

 


“André Knewitz é gaúcho de Campo Bom e sobrevive na República de Curitiba desde 2003 (com passaporte rasgado e sem visto). Começou a escrever ficção com desleixo em 2007. Frequentou as oficinas de João Silvério Trevisan, Otto Winck e Paulo Sandrini, e já publicou contos no jornal Relevo, no extinto portal Cronopios e na revista das Oficinas da Fundação Cultural de Curitiba de 2007. Pai de nove filhos, vô de onze netos (esse tal “pai” pode dar um ótimo personagem).”

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