Acordos, uísques e playboys

Segunda Crônica por Cid Brasil

Aos onze anos a única coisa que me fez tirar as mãos do controle do videogame foi uma mulher, e esse despertar da primavera se deve bastante a Sônia, a primeira babá do meu irmão mais novo.

Tudo começou no dia em que a flagrei dado um belo gole no gargalo de um Ballantine’s que havia na sala de casa. Na verdade foram dois goles sorvidos, um de prazer e outro para se recuperar do espanto após minha descoberta do misterioso caso da evaporação do uísque de meus pais. Passado o choque, Sônia prometeu que se eu ficasse de bico fechado sobre seu bico aberto com a bebida, no dia seguinte seria recompensado. Olhei para o nenê em seus braços, sorrindo, e concordei.

Se for jogo, traz o Tomb Raider 1!

É melhor ainda, garoto! Muito melhor que isso daí…

Tomb Raider era um game cuja protagonista chamava-se Lara Croft e fazia sucesso com a molecada dona de Playstation entre outras coisas por possuir polígonos avantajados e roupas curtíssimas. Nesse dia quase não dormi achando que a Sônia traria para mim o segundo jogo da Lara Croft (já que ela dissera que era algo melhor que o primeiro; eu podia sonhar, não podia?), quando o dia clareou corri até o ponto de ônibus para esperá-la. Em casa, após ir todo o caminho contendo minha euforia, Sônia puxou da bolsa uma playboy, já meio gasta, da Paloma Duarte. Na verdade a capa fora arrancada e como folha de rosto havia uma propaganda do cigarro hollywood azul.

 Sônia, eu não fumo…

 Abra! – Ela ordenou.

Talvez fosse de algum filho seu, talvez do marido ou talvez comprada de algum alfarrábio, mas muito ensinou-me e entortou-me aquela revista cuja entrevista principal era da Wanderléa tendo como declaração bombástica a informação de que era virgem durante toda a efervescência da jovem guarda.

Havia também uma matéria sobre como o sexo era a primeira vítima da rotina de um casamento e dicas de moda masculina. A tendência para se apostar, segundo eles, eram os macacões jeans e os sapatos de camurça com plataforma. O que terminou por ser uma dura lição sobre periodicidade, pois foi somente após o bullyng dos colegas para meu novo vestuário que me dei conta de que a revista era de 1996 e de que estávamos em 2000. Semanas depois sofri outro duro revés ao experimentar na prática o terrível mal da monogamia quando me vi enjoado da carinha sonsa e das declarações clichês em negrito de Paloma.

Já tendo usando e abusado das piadas da última página para ganhar popularidade com os mais velhos, logo tratei de fazer um novo acordo com a Sônia. Vendo que estava por fora dos assuntos da galera do colégio que apreciava a arte do onanismo, acertei de todo mês dar dez reais para ela me trazer uma playboy da banca.

O ser humano é mesmo capaz de qualquer coisa no que toca suas taras e obsessões, já que ao fazer esse trato eu também estava autorizando Sônia a se relacionar mais assiduamente com as garrafas, o que era um risco não só à moleira e a vida do meu irmão em seu colo, como ao fígado da própria Sônia.

Após seis revistas e três garrafas de Ballantine’s, nenhum dos filhos de Dona Ângela sofreu queda ou fraqueza e a pobre babá partiu para um cargo melhor: repositora de supermercado. E embora ela tenha jurado de pés juntos que o novo emprego, além de mais próximo da sua casa, pagava melhor, demorei a perdoá-la por sua partida. Consolei-me bastante com o harém que ela havia me relegado e logo a entendi e a perdoei, preferindo então culpar a falta de variedade da nossa adega que em nada se comparava com o sortilégio de opções etílicas que as prateleiras do wallmart ofereciam ao sedento paladar de Sônia. Era mais ou menos como se alguém quisesse me convencer a assinar a Playboy só para ler os artigos do Ruy Castro.

Cid Brasil é escritor, algo entre José Sarney e James Joyce.

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