abril-de-dois-mil-e-dezoito

eu disse vamos conversar
porque nunca conversamos
porque sempre que digo algo me parece que o que queria dizer é outra coisa não o que digo e o que digo não funciona nunca

a palavra não é útil
<aqui>
nesse lugar ela não cumpre seu papel

justamente <aqui>

onde tudo o que é dito tem peso de âncora
e não pode ser desdito de jeito maneira

pra ser desdito
é necessário que novamente se diga
e que a coisa dita seja de medida maior e força contrária (e as coisas contrárias ao que costumamos querer desdizer tendem a ter menos força) você sabe que é assim

é muito-muito-difícil (então o cuidado deve ser imenso deve ser trezentas mil vezes do tamanho que é normalmente)

o que tem que ser dito requer cálculo e eu nunca lembro o resultado do cálculo que fiz sobre o que dizer na hora em que estou dizendo

(mas a verdade é que isso acontece porque sei que o resultado não é seguro eu não faço a mínima ideia da imagem que determinado fonema cria em você)

e odeio a trajetória que faz o pensamento
em direção ao verbo
quando o afeto
além de caber no ato
carece de tradução

e detesto mais ainda o homenzinho gerente da fábrica que existe dentro da minha boca e que produz esses signos sonoros em grande escala ele é um doido desprovido de bom senso incapaz de deixar o presidente dessa empresa satisfeito não suporto tanta incompetência esse cara vai ser demitido

eu disse vamos conversar e era exatamente isso o que eu queria dizer sim-era-mesmo-sem-sombra-de-dúvida
pero não tenho certeza por quais dutos
nem com quais fluidos
podemos começar

 

Dora Figueiredo é alguma coisa ainda não parida. Um projeto de não-artista, não-poeta, não-atriz, não-bailarina, não-pesquisadora. Gaúcha, alfabetizada em terras maceioences e crescida onde “quem não é fazendeiro é boi”, os seus 18 aninhos foram uma salada dos mais divergentes contatos artísticos. Mudou-se para Curitiba em janeiro de 2017 e atualmente cursa o 1º ano do Bacharelado em Artes Cênicas pela Faculdade de Artes do Paraná.

Arte: Nanna Ajzental

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