A Vida dos Outros

Quando lançado, em 2006, A Vida dos Outros venceu sete e recebeu onze nomeações para o Deutscher Filmpreis, principal prêmio do cinema alemão. Foi também um enorme sucesso de público, arrecadando setenta e sete milhões de dólares com um orçamento de apenas dois milhões. Além das qualidades artísticas, o filme foi muito elogiado pela fidelidade com que retratou a vida e os cenários da Alemanha Oriental.

Em 1984, o agente da Stasi Gerd Wiesler é encarregado de monitorar as atividades do dramaturgo Georg Dreyman, um artista aparentemente pró regime e de renome internacional. Wiesler instala aparelhos de escuta pela casa, comprovando que Dreyman de fato acredita no ideal socialista. Apesar disso, o monitoramento continua e, com um ponto de vista privilegiado, o agente acaba simpatizando com o estilo de vida intelectual e artístico do dramaturgo, assim como por seu relacionamento amoroso com a famosa atriz Christa-Maria. Logo revela-se que os motivos da espionagem nada têm a ver com lealdade ao partido, e Wiesler terá que decidir entre o dever e a justiça.

Devido à delicadeza com que constrói enredo e personagens, é difícil acreditar que A Vida dos Outros tenha sido o primeiro longa metragem de Florian Henckel von Donnersman. É incrível, por exemplo, a intensidade dramática de algumas cenas praticamente sem ação, algo obtido graças à cuidadosa exposição de motivações e sentimentos dos personagens envolvidos. A escolha de um agente da Stasi como herói foi ousada, mas permite expor as consequências negativas de um estado de vigilância sem parecer demagógico. Há, certamente, um vilão, mas não a Stasi – o serviço simplesmente potencializa a capacidade de ação desse vilão, com consequências trágicas. Ao fazer com que recaia num agente dedicado, perfeitamente consciente do dever de obediência, o fardo das ações ilegais (inclusive na Alemanha Oriental) de seu superior, lembramo-nos da máxima: o ser humano está condenado a ser livre.

Por Henrique Fanini Leite

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