A Senhora da Van

Para a grande maioria dos brasileiros, o nome Maggie Smith provavelmente não significa nada. Qualquer um que veja a atriz, no entanto, a reconhecerá instantaneamente: é a Senhora McGonagall, dá série Harry Potter. O trabalho de Maggie Smith vai muito além dos filmes da franquia, estendendo-se por seis décadas e abrangendo filmes, peças de teatro, dublagem e televisão. Nesse contexto, A Senhora da Van, dirigido por Nicholas Hytner, não está nem entre os dez melhores filmes da atriz. Apesar disso, esta obra combina uma atuação excepcional de Smith com uma narrativa metalinguística, algo que agradará qualquer um interessado em literatura.

O enredo é baseado em uma história real, retirada das memórias do escritor e dramaturgo inglês Alan Bennet. Por mais de quinze anos, Mary Shepherd, uma senhora idosa e aparentemente senil, viveu em uma van decrépita na garagem de Bennet. O ponto chave da narrativa é o relacionamento dos dois, sobretudo a personalidade incrivelmente caricata da indigente. A mim, parece inacreditável que um homem tenha vivido por quinze anos observando uma pessoa miserável em sua garagem sem fazer nada para tirá-la dessa situação, mas seria necessário um filme completamente diferente para abordar a questão por esse lado.

Maggie Smith tinha mais de oitenta anos quando A Senhora da Van foi gravado. Ver alguém dessa idade atuando com destreza é um espetáculo por si só. A direção, no geral, não chama atenção, mas Hytner faz um bom trabalho trazendo para a tela o processo criativo e as reflexões de Bennet, sem exagerar nas citações e (talvez um pouquinho) no voice over. O filme teria tido mais impacto, não fosse o final decepcionante. No que pese o título da obra, é preciso lembrar que, originalmente, o personagem central é Alan Bennet. As memórias são dele, afinal. Hytner acerta ao desenvolver e dar destaque ao personagem mais interessante da narrativa, mas contradiz a própria lógica ao fazer com que o final seja sobre Bennet, não sobre Miss Shepherd. Por consequência, os dez últimos minutos nos parecem um adendo supérfluo, um preciosismo desnecessário. Ainda assim, o restante da obra mais que compensa estes poucos minutos tediosos, seja pelas risadas ou pelos insights literários.

Por Henrique Fanini Leite

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