A.PRESENÇA_DE_DEUS.mp3

Segunda Crônica por Cid Brasil

Vou confessar uma coisa bem palha para vocês: eu nunca usei drogas. Reconheço que é triste uma pessoa ter desperdiçado parte da adolescência e juventude sem ter dado um prazerzinho sequer ao Satanás. Nunca provei maconha depois escola, nem no recreio, nunca joguei uma partida de futebol de salão chapado. Meu ápice da caretice foi sair ileso e sóbrio de uma fase teatral aos vinte anos. Que desperdício!

Mas sei porque isso ocorreu, e não foi por culpa de pais amorosos ou presentes que não cheirei lança-perfume, nem mesmo por falta de grandes traumas durante a puberdade. O meu não às drogas foi mais um castigo divino, disso tenho certeza, do que qualquer outra coisa.

Até esbocei uma tentativa de entrar no mundo das drogas ilícitas ainda que de uma forma tão tola quanto tragar o derby azul de um colega. Essa tentativa se deu graças a um rapaz muito curioso, que apreciava “os efeitos alterados da consciência”, ainda que nem vodka durante os jogos internos do colégio ele topasse beber. Para preservar a identidade do Douglas Bernardo, que é meu amigo até hoje, creio ser de bom tom mudar seu nome e lhe dar aquelas vozes de Pato Donald, portanto vou chamá-lo aqui de… Pé de Rato.

Dougl, digo, o Pé de Rato era figura sui generis, criado junto com o irmão pelo avô judeu (nada ortodoxo). O Rato foi uma das primeiras pessoas que tiveram computador em casa, fruto de um prêmio que o velho ganhara ao se aposentar numa transportadora. Quase todas as tardes o Rato telefonava para minha casa dizendo que tinha descoberto coisas maravilhosas na internet. Em geral eram jogos de computador ou videoclipes, mas uma hora a onda mudou.

Tratava-se de um programa de computador que prometia literalmente fazer a cabeça de quem o usasse e chamava-se I-Doser, logo o Rato traduziu: a parada produzia drogas sonoras, sons e ruídos que visavam interferir nas ondas cerebrais e liberavam uma dopamina legal. Os arquivos simulavam o efeito de várias drogas como maconha, cocaína e LSD, além da possibilidade se sentir sensações prazerosas das mais variadas, como euforia e sentimentos nostálgicos. Era nossa chance de se chapar de forma limpinha, pensamos. Éramos bons alunos, mas curiosos. O Rato estava sozinho nesse dia, sem o avô e o irmão mais velho (que anos mais tarde, soubemos, sempre dispunha de maconha no quarto, o que teria sido um começo mais digno, creio eu).

— Olha, vem para cá – ordenou o Pé de Rato – tem até uma aqui que se chama orgasmo total, que diz fazer você reviver esse momento; aquela sensação, aquela empolgação, cê tá ligado?

— Mas eu nunca trepei, Rato!

— Bom, então tem uma do primeiro amor. Tá ligado como deve ser, né?

Eu estava ligado, tanto, que no caminho até a casa do Rato, a cada pedalada que dava na bicicleta era como se estivesse indo ver a Laurinha outra vez, como se já estivesse usado/ouvido o troço lá dele. Para vocês terem uma noção de como faltava um orientação correta para se cair na perdição, já que tendo a disposição todo um leque de entorpecentes virtuais e promessas de viagens lisérgicas dignas de um conto de Philip K. Dick, só me empolguei com as drogas por uma promessa de onda nostálgica de algo que eu nem vivera direito. No fim, a coisa toda, um arquivo chamado first.love.mp3 era como morder uma maçã de cera por engano, que dava mais dor de cabeça do que se eu tivesse consumado aquela paixão de verdade e engravidado a guria na época.

Experimentamos essa do primeiro amor e, se bem me lembro, uma lá de quase morte – extremos de um romântico, não? – essa mais por insistência do Rato que apenas o deixou com fome de doce.

Eu já estava quase indo para casa quando…

— Caralho, esse aqui deve ser bom, olha! A presença de deus!

Li a pequena descrição do arquivo em mp3 que prometia uma sensação de bem estar etérea e uma plenitude incomparável, e aí, não sei bem porque, fiquei empolgado. Talvez porque acreditava muito em Deus quando adolescente e o via quase como uma loja de brinquedos ambulante, onde eu podia pedir títulos para o meu time, uma vida nababesca para mim e jogos e mais jogos de videogame que ele daria um jeito de providenciar.

Fechei os olhos e comecei a mentalizar o que era deus para mim até então: nuvens e mais nuvens, acompanhadas da voz do Cid Moreira. Passado certo tempo da algaravia, fui sentindo não a falada onipresença do homem, mas sim uma portentosa ereção. Mantive o pulso firme e continuei nadando naquele papel de parede do Windows até que a gargalhada do Rato para o volume no meu calção de tactel me desconcentrou da viagem. Também senti uma fome desgraçada e uma tristeza infinita por ficar de rola dura na presença do Criador. Antes de voltar para casa, brinquei com o Rato dizendo que talvez o efeito colateral da droga sonora servisse para o avô dele. Alguns meses depois o velho teve um enfarto na sala de casa e foi visitar deus de verdade, mas nunca perguntei se o Rato tinha lhe repassado a parada.

Cid Brasil é escritor, algo entre José Sarney e James Joyce. Seu livro de contos e crônicas, “A Importância de se Chamar Kurt Russel”, será publicado no 2º semestre de 2018 pela editora Imprensa Oficial Graciliano Ramos.

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