A Balada de Buster Scruggs

Costurada por semelhanças temáticas e estilísticas, a obra dos irmãos Coen transita por diversos gêneros. Em A Balada de Buster Scruggs, produzido para o Netflix, os diretores nos trazem uma antologia western. A obra foi bem recebida pela crítica, mas não obteve grande reconhecimento nos festivais de cinema. Dois fatores provavelmente contribuíram para isso: a associação com companhias de streaming e a variabilidade natural de antologias, em que dificilmente todas as histórias agradam o público igualmente.

A obra consiste de seis histórias, todas passadas no velho-oeste americano. A primeira delas traz uma típica narrativa de bangue-bangue, seguida por uma história de roubo, com ataque de índios e todo o resto. A terceira história destoa das iniciais, com forte aprofundamento dramático e certa ambiguidade moral. A quarta narrativa trata de um personagem um pouco menos conhecido desse universo: o garimpeiro. A quinta vinheta é uma típica história de amor, com final trágico, enquanto a sexta nos apresenta apenas um diálogo, mas tão bem construído que chega a ser o trecho com maior tensão de todo o filme. Tematicamente, o único elemento comum a todas as histórias é a morte, mas prevalece um senso pessimista, e, com certa boa vontade, até podemos enxergar algumas nuances mais profundas.

Como é típico dos irmãos Coen, Buster Scruggs é ao mesmo tempo homenagem e paródia. Em cada uma das vinhetas, somos apresentados a personagens típicos do universo do Velho Oeste: o fora da lei, a moça indefesa, os caçadores de recompensa, dentre outros. Os clichês são então desconstruídos com reviravoltas inusitadas no enredo, questões filosóficas inesperadas ou pela simples força cinematográfica da direção. Em se tratando de uma antologia, é fundamental alguma forma de unidade, algo que faça do filme mais do que a soma das histórias. Em Buster Scruggs, vislumbramos esse elemento, mas apenas de relance. O prazer de procurá-lo, no entanto, já vale o filme.

Por Henrique Fanini Leite

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