Segurar

Ir ao mercado é sempre uma sessão. Pega carrinho, separa sacola. Arrasta carrinho, levanta carrinho, troca sacola de mão. Os vizinhos seguram as barras e as rodas de um carrinho de bebê para subir as escadas da entrada, nós seguramos as hastes frágeis e as rodinhas arriadas do nosso carrinho de feira enquanto reflito como me sentiria se o peso das batatas fosse o peso de um bebê, mesmo sabendo que bebês pesam muito menos e muito mais.

Eu queria que as coisas fossem todas tão concretas como sacos de batata – o justo contrário dos bebês, tão simbólicos. Pensei isso hoje quando, pela primeira vez, tive a chance de ir ao supermercado de carro.

O estranhamento começou ao apertar o botão -2 do elevador. Em vez de usar o indicador até usei o dedinho, como se o mau jeito refletisse no corpo. Quando a porta cinza abriu, eu não estava no hall. No 0 há a luz intensa do dia a entrar pelos vidros. E os cães ao fundo acocorados fazendo sobre o cascalho o que não devem, enquanto os donos puxam as coleiras fingindo querer evitar que aconteça aquilo que estavam ali para que acontecesse.

Depois de sair do elevador no -2, empurrei com o braço a porta corta fogo. Aí meu coração disparou. Era como se estivesse nas entranhas do prédio, engolida por uma parte que até ali funcionou oculta enquanto eu bati meus saltinhos contentes sobre a superfície do jardim.

Cintos apertados. Os faróis acesos. E o carro valente, a subir a rampa íngreme, tenso como quem foge de dinossauros num escuro Jurassic Park.

A descida à garagem foi mesmo algo que remeteu a qualquer coisa de jurássico, senão no prédio, na minha própria cronologia – passado recente e remoto, exatamente como são os filmes de dinossauros e os dinossauros eles mesmos.

Quando apontaram para a vaga e disseram “essa é que é a sua”, achei mais fácil sentir um saco de batatas como sendo um bebê – coisa que tantas vezes fantasiei ao levantar o carrinho – do que reconhecer aquele pedaço de chão como meu. Quis anotar a palavra dinossauro para usar mais tarde, mas no lembrete constava: “a garagem parece um dissonauro”. Talvez eu quisesse ter escrito a palavra dissonância, mas a desproporção, a desarmonia e a má combinação precisavam alcançar mais corpo além do dedinho.

Quando vi um dedinho da rua, não soube dizer para qual lado ela seguia. Eu nunca tinha visto as árvores nem o prédio da frente sob aquele ângulo. Nas primeiras duas quadras, a vertigem. Enquanto a calçada portuguesa transformava-se num borrado, os meus pés pareciam pousados em coisa nenhuma. O chão do carro não tem relevo, a gente desliza parado, flutuando sobre a rua sem perceber a aceleração – não a do carro, a do tempo.

Da janela eu não via os chicletes grudados. A cigana que sempre me sorri não me viu passar. Quase passa a pastelaria e eu não a vejo, como se o cheiro do balcão fosse parte imprescindível na forma como atesto a existência do estabelecimento. Metade de mim estava dentro do carro e a outra caminhava alheia, arriscando-se ao cruzar a faixa antes de aberto o semáforo de pedestres. Deixei de ver muita coisa, mas de dentro do carro pude, pelos menos, ver a mim mesma: a caminhar de galochas com os passos apressados, o mau humor com o guarda-chuva a quase virar do avesso, os olhos fechados com a chuva ao encontro da cara. A mochila amarela pendurada às costas, as alças dela esticadas ao máximo a denunciar o peso, e o tecido fino a denunciar o formato das garrafas de vinho a tilintarem como um sino de vento misturadas ao meu grito de veeeenha. Logo atrás o companheiro, afobado: uma das mãos a pedir calma, enquanto a outra arrasta o carrinho.

Olho para a minha esquerda. Ele ao volante está seco e cheiroso – tão mais perto e tão mais longe de mim, os dedos trocam as estações de rádio enquanto os olhos miram o vazio. Uma buzina pela demora em arrancar diante do semáforo aberto o devolve a si. No caminho até o supermercado poderíamos conversar sobre alguns assuntos sérios, mas o trânsito já oferece irritação bastante. A pé, o assunto da ida só poderia ser ponderar longamente se entraríamos na loja de departamentos para dar uma olhada rápida nas novidades, selando a promessa de só olhar. Quantas serão as coisas que prometemos apenas olhar e admirar juntos, sem a intenção de ter? Na volta, o som da respiração compassada, a concentração interrompida apenas para perguntas como “tá muito pesado aí?”, “quer ajuda?”, “reveza comigo”, “deixa que eu seguro” e a certeza de que damos conta do percurso.

A palavra segurar pode significar tantas coisas.

Estar seguro contra chuva será assim tão bom? Agora estamos sóbrios dentro do nosso tão sonhado carrinho. E é ele quem nos arrasta, fôssemos dois sacos de batata. Eu queria que as coisas fossem todas tão concretas como sacos de batata, mas reconheço que até eles se prestam a ser metáfora; rasgados fazem rolar pela rua os disfarces – como quando vejo os cães do prédio no cascalho em frente ao hall, enquanto os donos puxam as coleiras fingindo querer evitar que aconteça aquilo que estavam ali para que acontecesse.

 

Andressa Barichello nasceu em São Paulo. É mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa e co-fundadora do projeto de Coinspiração Cultural Fotoverbe-se.com no qual realiza vivências com artistas. É autora do livro “Crônicas do Cotidiano e outras mais” vencedor do prêmio Alejandro Cabassa pela União Brasileira dos Escritores do Rio de Janeiro, publicado em 2014 pela Scortecci Editora.

Arte: Nanna Ajzental

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